sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Os Miseráveis (Les Misérables, 2019)


Cada vez mais estamos vendo o cinema representar a convivência humana em situações de descaso e exclusão. Vemos isso em Cafarnaum, Parasita e o brasileiro Bacurau. Cada um desses usa a precariedade de sua região para estudar o comportamento humano. No caso de Os Miseráveis, de Ladj Ly, a França é o cenário de uma revolta que mesmo que tudo nos leve aquilo, é um tanto inesperada. O engraçado é que tudo acontece por meio da ação de policiais que aproveitando o descaso em bairros periféricos atuam como milicianos. A chegada de um novo policial nos dá um panorama de fora, como se fossemos nós que acabamos de entrar em cena. Essa visão é o que nos faz sentir tantas emoções diferentes.

O gatilho para isso é a busca de quem roubou um filhote de leão do circo. Logo os policiais, interpretados por Djibril Zonga (como Geada), Alexis Manenti (Chris) e Damien Bonnard (Stéphane, o policial novato), descobrem que o autor do furto (ou sequestro) é um jovem já conhecido por seus atos de rebeldia. Quando finalmente encontram o garoto precisam correr atrás dele, acompanhado por meia dúzia de outros meninos que tentam defender seu amigo. Então começa o confronto entre garotos e policiais. Em meio a pedras, latas e o que mais fosse achado pelo caminho, um dos policiais dispara uma bala de borracha que acaba atingido o garoto preso. É então que começa um ensaio sobre certo e errado, justo e injusto.

Mas seria muito injusto resumir-se a isso. Os Miseráveis vai além dessa singela história, muito além. O filme se trata da diversidade encontrada na França. Começando pelos policiais. Um ariano, o mais violento entre eles, um negro e por fim o novato, que se mostra o mais simples de todos eles. Enquanto isso temos o "Prefeito" que comanda uma parte da cidade e um mulçumano que já teve os seus dias de crime e que hoje tenta livrar as crianças dessa vida. Ladj Ly retrata pessoas que buscam um lugar para se encaixar, um jeito de viver a vida. Mas fica claro que não apenas os personagens buscam por isso, e sim um país inteiro, com regiões tão excluídas que pouco se sabe de que forma agir.

Ladj Ly não diz o que é certo ou errado. Ele lida com a ética e nos deixa decidir que lado queremos apoiar. No último ato temos cenas impressionantes, que nos pega de surpresa. Ali sentimos um misto de emoção que quando se sai do cinema, ainda já se sabe o que pensar. A grande jogada do diretor é deixar o final por nossa conta. Vamos quebrar a cabeça por semanas e em cada uma delas vamos acreditar em um final diferente, pois ele é tão incerto quanto o que é justa e injustiça aos olhos de muitos de seus personagens.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O Vento Nos Levará (Bad ma ra khahad bord, 1999)


De certo, Abbas Kiarostami é um diretor singular. Mas aqueles que acompanham seu trabalho já estão preparados para o sossego e as repetições de cena. É assim em todos os seus trabalhos, porém isso não nos leva a monotonia e sim a uma reflexão sobre a jornada humana, com roteiros que trazem um aspecto documental, mesmo quando não é. O Vento Nos Levará mostra a jornada de um protagonista que se diz engenheiro, mas que em momento algum se mostra ser. Fica o mistério, que vamos descobrindo aos poucos, mas sem nenhuma afirmação se é isso ou aquilo.

O motivo da chegada do engenheiro e sua equipe a uma vila no interior do Irã é um segredo, o que dizem é que estão a procura de um tesouro. Mas suas atividades se resumem a coisas comuns, como a busca por um pouco de leite e a correria para chegar em um ponto mais alto e ter sinal de telefone. Isso nos dá tempo de aprender um pouco sobre a cultura local e ver um ensaio sobre vida e morte, a partida e a chegada de ambas. Enquanto temos um senhora que está em seus últimos dias, temos a mulher grávida que dá a luz a seu filho e no dia seguinte já está de volta ao trabalho. 

A vida e a morte estão em constante movimento enquanto a história se desenrola. E a omissão do que é procurado transforma o protagonista. Vemos em muitos dos personagens a vontade de ajudar, mas percebemos que não é de toda bondade, mas como uma aposta de que aquilo os beneficiária de uma maneira ou de outra. É tudo uma questão cultural que talvez fuja do nosso entendimento até aquele momento, mas que agrega ao vermos que se trata de uma região onde a cultura é só o que permanece de geração a geração.

De fato é tudo muito misterioso. Talvez o tesouro que Kiarostami procura em seu filme são os mistérios da vida e da morte. Isso em um cenário árido, com casas muito próximas de um vilarejo pequeno, onde qualquer coisa se torna logo conhecida. O engenheiro chega como visitante de todos e ali fica, em busca de seu tesouro. E entre a vida e a morte de muitos que o cercam, o final lhe rende algumas fotografias do luto da senhora que certa hora parecia que não morreria, e talvez, mas sem muita certeza, seria essa a sua busca.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Synonymes (2019)


Nos últimos anos, foram inúmeros os casos onde pessoas morreram de frio. Vemos o poder do clima gelado da França quando Yoav (Tom Mercier) corre pelado por um apartamento sem nenhuma mobília. Recém chegado ao país, o imigrante palestino tem todas as suas roupas furtadas enquanto tomava banho. Desesperado, corre pelos corredores do prédio, no começo em busca de seus bens roubados, em seguida, a procura de alguém que o possa ajudar. Sem ajuda, volta a banheira outrora quente e, por fim, se deixa congelar. 

Podemos dizer que Synonymes é um filme ambicioso, mas um ótimo trabalho do diretor Nadav Lapid. Até ali, nada sabemos sobre Yoav. De onde veio e os motivos permanecem ocultos, nos instigando a esperar o fim dessa história. História que não seria possível seu um vizinho caridoso e sua namorada (interpretados por Quentin Dolmaire e Louise Chevillotte) não o resgatasse da banheira congelante. E é através da história contada pelo próprio Yoav que descobrimos suas origens e motivações. Ex-soldado do exército palestino, Yoav deseja mudar de vida, tendo como amigo um dicionário de hebraico-francês. Mas sua jornada na França não promete ser fácil e desde início ele passa por situações humilhantes.

O filme de Lapid é uma obra singular. Montado de uma forma que a história do protagonista não siga nenhuma ordem cronológica, ele segue uma.narrativa imagética. Com cenas soltas e algumas em uma filmagem mais "suja" nos deixa mais imersos na vida de Yoav. O que aumenta essa sensação é a trilha sonora, principalmente em momentos de maior tensão. Yoav foge de seu país para esquecer a guerra, acaba adquirindo um patriotismo francês que, vemos em diversas cenas, nem mesmo os originários ostentam. Isso é visto em suas aulas para virar cidadão francês, quando é indicado para cantar o hino, vemos uma euforia que está presente nele, mas não em personagens como Émile e Caroline. Ainda no decorrer dos mais de 120 minutos, vemos que as questões extremistas e religiosas estão presentes mesmo em outra país, uma parte por conta de organizações criminosas francesas, que pregam o preconceito a estrangeiros; outra parte do conta de imigrantes palestinos, que lutam contra essa primeira. 

Dá para entender porque Synonymes levou Berlim em 2019. O filme de Nadav Lapid mostra uma certa beleza marginal, que permeia entre imagens que parecem amadoras à cenas longas e belas. Se em alguns momentos o roteiro segue um ar literário, em outros momentos exprime o ódio e desespero de um personagem que deseja fazer parte de um sociedade que o rejeita, como uma forma de fugir dos próprios fantasmas. Além de sua beleza estética e singular, Synonymes se mostra necessário em um momento em que o mundo briga por uma maior adequação da visão do Homem.