quinta-feira, 18 de julho de 2019

Divino Amor (2019)


Em 2027 o Brasil é um país onde a religião é o principal sistema político. Joana (Dira Paes) é uma das crentes que, trabalhando no cartório civil, é responsável por atender casais de desejam se divorciar. Seu papel, segundo seu próprio plano espiritual, é tentar recuperar esses casais e manter o valor da crença e da família brasileira. Seu desejo é sincero e para que isso aconteça, Joana encaminha os casais ao Divino Amor, uma espécie de seita religiosa que dá título ao filme. Sua credulidade se manifesta através de sua fé, mas também existe algumas atitudes estranhas imposta por sua religião, juntando isso ao desejo inalcançável de ser mãe, a protagonista embarca em uma jornada de amor e fé.

Olhando para o momento em que nos encontramos, onde temos "o Brasil acima de tudo e Deus acima de todos", Divino Amor passa de ser uma ideia distópica para se torna um temido futuro. O filme do diretor e roteirista Gabriel Mascaro traz um história interessante, mas executado de uma forma tão sutil que deixa a produção pouco atrativa. Desde o início uma criança que narra e explica alguns momentos em off nos dá um panorama do que o Brasil em 2027. O carnaval foi deixado de lado e substituído por uma balada religiosa. Enquanto orações mais corriqueiras podem ser feitas em um drive thru. Enquanto isso, toda a população vive a espera só retorno do Messias, embora não estejam preparados para isso. O mistério em torno da personagem de Dira Paes está montado, mas peca em alguns momentos.

Quando assisti Boi Neon fiquei surpreso com a qualidade do que foi feito por Mascaro. Mas a cena de sexo entre o Iremar e Geise foi de um certo exagero. Isso se repete de forma mais contundente, quase apelativo, em Divino Amor. Mas vamos ao início. A "igreja" frequentada por Joana e seu marido tem um "ritual" onde dois casais vão a um quarto e participam de uma espécie de swing, não por prazer, mas pelo sentimento de compartilhamento. A ideia é interessante, mostrando até onde vai a fervorosa crença na religião. Porém, a execução é exagerada, exibindo longas cenas que entregam tanto, que pouco deixa para a interpretação do espectador.

Embora Gabriel Mascaro tenha começado a escrever Divino Amor há 4 anos, o filme não poderia ser mais atual e por isso se torna tão importante. Talvez o baixo orçamento o tenha prejudicado um pouco, mas as falhas que apontei são apenas uma questão de percepção, não gostei de algumas coisas, mas isso não tira o mérito da história forte montada pelo diretor, que merece ser vista no cinema.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Dor e Glória (Dolor y Gloria, 2019)


Salvador Mallo (Antonio Banderas) é um cineasta que devido a problemas graves de saúde encerrou suas atividades. Quando a cinemateca de Madri o convida para apresentar a versão restaurada de Sabor, um de seus filmes de maior sucesso, Salvador passa a revisitar alguns momentos da sua vida, questionando algumas de suas decisões e buscando algo que dê sentido ao seu novo estado.

Ainda lembro de quando assisti A Pele Que Habito (2011), o primeiro filme de Pedro Almodóvar que vi no cinema, com devida atenção. Pode-se dizer que Dor e Glória é muito de quem é Almodóvar. Salvador Mallo enfrenta uma crise sobre sua existência no cinema, sua vida como homossexual e a dependência de drogas. Tais fatores trazem uma história intimista, explorada de maneira que só o próprio diretor poderia fazer. Quando falar de si pode ser um problema a ser enfrentado, o cineasta espanhol o faz com formidável beleza.

Porém, em diversas entrevistas Almodóvar afirma não se tratar de um filme autobiográfico. Quer acredite, ou não, não se pode negar as semelhanças entre o personagem interpretado por Banderas e o próprio diretor. Além de toda a trajetória explorada no filme. Claro que alguns acontecimentos são pura ficção, isso é sempre necessário em uma produção cinematográfica, mas qual a distância do real para o inventado? Essa é a questão que deixa Dor e Glória ainda mais atraente.

Gostei de ver Almodóvar dirigindo Antonio Banderas mais uma vez, é uma coisa que funciona muito bem. O trabalho do ator é sempre singular, se encaixando perfeitamente com a genialidade do diretor. Diante de uma fotografia primorosa e uma excelente paleta de cores, se Dor e Glória não é uma autobiografia do diretor, desejamos vigorosamente que o fosse.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Santiago, Itália (2018)


A eleição presidencial chilena em 1970 foi acirrada, mas vencida democraticamente por Salvador Allende. Suas ideias socialistas que visavam ajudar o trabalhador incomodou muita gente dentro e fora do Chile. Então veio o golpe de estado. Golpe dado pelo exército e marinha, com patrocínio do governo dos EUA e organizações terroristas. As perseguições começaram, quem se opunha aos militares era inimigo e compensado com a morte. Sequestros, desaparecimentos e torturas foram  os artifícios  usados pelo governo e a única escapatória para os perseguidos era pular o muro do único lugar onde poderiam conseguir abrigo seguro, a Embaixada Italiana.

Essa história pode ser encontrada em livros de história e muitos sites na internet. Não contente com isso, o diretor e roteirista Nanni Moretti traz depoimentos de quem se  refugiou naquela embaixada e que se não o tivesse feito, não poderiam contar a verdade do que acontecia nas ruas do Chile naquela época. Em Santiago, Itália recebemos essa verdade com precisão. O documentário mostra toda a história, começando na vitória de Allende até o momento em que os perseguidos políticos conseguem deixar o país rumo à Itália.

Alguns dos entrevistados vivem na Itália até hoje e contam como foram bem recebidos no país, conseguindo abrigo e oportunidades de trabalho com facilidade. Em certos momentos a emoção transborda para fora da tela, relembrar algo tão cruciante, que devido a isso é pouco falado no Chile, é muito doloroso, mas preciso. Quando Moretti entrevista os militares, dois deles, parece até que estamos em uma filme de faz de conta, pois é difícil acreditar que alguém possa afirmar que o que foi feito pelos militares tenha sido para o bem do povo. Mas Moretti deixa claro que ele não é imparcial e está fazendo isso para expor os verdadeiros culpados e não nos deixar esquecê-los.

Nanni Moretti faz um grande trabalho em Santiago, Itália. Ganhou, merecidamente, o prêmio de Melhor Documentário no David di Donatello, que é como um Oscar do cinema italiano, e o Nastro D'Argento dado pela crítica. O filme se faz uma produção importante para quem quer deseja entender um pouco mais da situação do Chile na década de 1970 e gostaria de evitar que algo assim aconteça no nosso futuro.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Camocim (2018)


Camocim de São Félix é um pequeno município de Pernambuco. Em época de eleição a cidade se divide em duas para defender seu partido político. Mayara, de 23 anos, é a responsável pela campanha de um dos candidatos a vereador e faz o possível para que ele e suas ideias de mudança vença a oposição. Mas a verdadeira protagonista é a cidade, que vira um campo de batalha político.

O diretor e roteirista Quentin Delaroche já havia produzido um documentário sobre a greve dos caminhoneiros em 2018. Agora em Camocim, volta mais uma vez para um assunto político em busca de mostrar os bastidores do que pode parecer uma guerra civil.  O documentário se torna interessante ao mostrar a atuação de um candidato a vereador, César Lucena, junto as pessoas do município, suas ideias e ideais para um renovação na política local.

Porém, isso o torna um pouco falho, talvez o uso de não atores seja o fator de tamanha timidez do candidato César, só Mayara entra em cena com mais facilidade. Ver sua vontade de mudança e o modo como acredita e luta por seu candidato chega a ser inspirador. Uma das coisas que ela diz mais de uma vez chama a atenção, algo como: "na eleição passada eu votei vermelho porque acreditava no que ele dizia, mas ele se perdeu na ganância e agora eu voto azul. Se amanhã ele errar, eu voto branco, preto, verde, desde que seja de acordo com o que é melhor para a minha cidade", acredito que muitos deveriam ver ao menos essa cena.

Embora não atinja o potencial que poderia, Camocim é um bom filme. Um dos seus problemas é um personagem frio, que não conquista o público, como vereador. Isso poderia ser evitado se o foco maior fosse na situação da cidade durante o período eleitoral e menos nos bastidores do candidato, mas ver o empenho de Mayara na campanha em que acredita faz valer a pena. Delaroche, francês radicado no Brasil, se mostra um diretor com vontade de buscar o inesperado, o conflito sociopolítico, e se continuar com isso e aprender com seus erros, nos dias de hoje, vai ter muito assunto para futuras produções.

A Árvore dos Frutos Selvagens (Ahlat Ağacı, 2019)


Sinan (Doğu Demirkol) é um professor recém formado que está de volta a sua cidade natal. Seu próximo objetivo é se tornar um grande escritor e esse retorno ao vilarejo em que nasceu promete atrapalhar seus planos. Seu pai acumula dividas com apostas em cavalos, diante disso sua família não pode ajudá-lo com a publicação de seu livro. Além disso, precisa, vez ou outra, ajudar no desenvolvimento de uma fazenda sonhada por seu pai. Seu jeito arrogante de idealista recém formado não o ajuda em conseguir patrocínio, mas no fim, ele finalmente atinge seu objetivo, mas o que fará depois?

A Árvore dos Frutos Selvagens desapontou alguns críticos em Cannes. Diz-se que ainda na primeira metade, muitos deles deixaram a sala. Como eu sempre digo, existe um grande problema em um filme muito autoral, ou ele agrada, ou não. Não existe uma área cinza para esse tipo de filme, é preto ou branco. Mas essa é uma característica do diretor e roteirista Nuri Bilge Ceylan. Cenas longas, diálogos bem explicados (longos) e uso extenso da paisagem.

Mas não deixa de ser um problema. O filme conta com mais de 180 minutos, metade deles desnecessários. Algumas vezes é interessante, como na cena em que Sinan discute com outros dois moradores sobre o Alcorão, mas na maior parte do tempo as extensões das cenas se tornam cansativas.

Porém, se esse é o pecado de Ceylan, ele compensa com um enquadramento fundamental para contar sua história. História essa que explora muito bem o desenvolvimento de uma pessoa que nasce e vive em um pequeno vilarejo. Sua jornada de descobrimento que questiona o que ele gostaria e o que precisa fazer e a decisão tomada diante disso. O interessante dessa jornada de Sinan é o modo como ele vai descobrindo o que é e tudo o que o leva a aceitar isso. Sempre com uma fotografia que por vezes se mostra meio desconsertante, mas na maioria do tempo, cirúrgica.

Nuri Bilge Ceylan é rígido como já era de se esperar, mas também dá espaço para o cômico e crítico. Explorando uma história bem autoral, ele parte com uma produção que poderia ser um pouco mais curta, menos cansativa, mas que se o fizesse, perderia sua personalidade. A Árvore dos Frutos Selvagens é um bom filme, claro que é preciso ir disposto a ver um filme longo e arrastado, tendo isso, será uma ótima experiência do cinema turco.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Teu Mundo Não Cabe Nos Meus Olhos (2016)


Vitório (Edson Celulari) é cego desde criança. Mas isso não o impediu de ser o pizzaiolo na pizzaria herdada de seu pai. Tão pouco em ter uma mulher, Clarice (Soledad Villamil), e filha, Alicia (Giovana Echeverria). Ele está satisfeito por ter superado todas as adversidades da cegueira, até que o pai de Clarice aparece com o filho de um amigo que pode curar essa falta de visão. Agora Vitório precisa entrar em conflito consigo e tomar uma decisão que pode ser a mais importante da sua vida.

Teu Mundo Não Cabe Nos Meus Olhos é escrito e dirigido por Paulo Nascimento, de quem eu já havia falado em Valsa Para Bruno Stein. Não lembro onde li, mas em algum livro dizia que um bom filme poderia ser feito em 90 minutos. Teu Mundo... tem esse tempo, mas precisava de muito mais. A apresentação de Vitório é excelente, promete boas emoções no decorrer da história, mas isso não acontece. Os dramas existem, mas são rasos, falta profundidade em todos os personagens. Clarice e Alicia estão deslocadas da vida do personagem de Celulari. E temos também o gaúcho Cleomar (interpretado por Leonardo Machado), que trabalha bem, mas não é ajudado pelo roteiro.

Se houvesse mais tempo para trabalhar cada personagem, teríamos uma história mais completa. Embora Alicia não demonstre nada de muito interessante, Clarice e Cleomar parecem ter um plano de fundo que deixaria a história mais emocionante. Não é que Celulari tenha atuado mal, fazia um bom tempo que não o via na tela e gostei muito do que assisti, mas assim como os outros personagens, faltou tato. Momentos de extrema euforia, com eles no estádio do Corinthians ou quando o time ganha o mundial de clubes, passa como um flerte de alegria, ocasiões pouco aproveitadas.

Sendo justo, Teu Mundo Não Cabe Nos Meus Olhos e um filme mediano. A produção traz seus momentos de emoção, mesmo que não muito aprofundados, e também suas graças. Mas a mensagem principal é passada, através de closes que aproximam o espectador dos personagens e afirmam a necessidade de se enxergar por dentro. E também o conflito entre deixar de ver, ou até mesmo desver, depois de tanto tempo em um mundo formado de ideias incertas das coisas. Um dos últimos trabalhos de Paulo Nascimento traz novamente ao elenco Giovana Echeverria e Leonardo Machado, dessa vez como protagonistas. A Superfície da Sombra pode explorar mais a qualidade desses atores, vai ser minha aposta para uma sessão futura.

Deslembro (2019)


Filha de pais militantes que lutaram contra a ditadura militar, Joana foi criada na França, país onde sua mãe refugiou-se após seu pai ter desaparecido em poder dos militares. Alguns anos depois, contra sua vontade, volta ao Brasil com sua mãe, dois irmãos e padrasto, que por sua vez lutou contra Pinochet, no Chile. A perspectiva de uma nova vida no Brasil desperta fragmentos de memória de Joana, que em busca de desvendar o desaparecimento de seu pai, embarca em uma jornada de amadurecimento e descobertas.

Delicadeza é o que melhor define Deslembro, filme escrito e dirigido por Flávia Castro. A história se passa em 1978, um período de transição no Brasil, e traz como cenário o Rio de Janeiro. Leva um tempo para que Joana se adapte ao novo país, mas é nisso que vemos um cinema sendo bem feito. Quando chega ao Brasil a garota ainda está atrelada a música internacional, mas com o tempo vai sendo envolvida pelo samba carioca.

A única coisa que desaponta um pouco é a simplicidade, que em Deslembro age de duas maneiras. O desapontamento é devido a falta de emoção em algumas cenas das quais se espera mais. A atuação de Jeanne Boudier (Joana) é excelente, mas em alguns momentos em que contracena com Eliane Giardini (sua mãe, Lúcia) falta um pouco do confronto adolescente. Mas em contraponto, temos a simples e bela fotografia de Heloísa Passos. Embora o Rio seja uma ótima cidade para se filmar, vemos muitos quadros fechados, mas que ainda assim capturam toda a beleza que podem proporcionar.

Se Flávia Castro já havia feito um ótimo trabalho no documentário Diário de Uma Busca (2011), agora ela traz o mesmo tema para a ficção e surpreende. Talvez tenha faltado um pouco de emoção, mas acompanhar Joana em suas descobertas e acabando com um pequeno resquício transgressor nos mostra o que foi aquele período de transição do país, que parece ainda não ter chegado ao seu fim.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Nunca Deixe de Lembrar (Werk Ohne Autor, 2019)


Ainda hoje nazismo é um dos temas que mais vendem no mercado. Filmes, revistas e livros são produzidos frequentemente. Logo, o mais difícil para qualquer produtor artístico é encontrar uma forma de ambientar sua narrativa nesse momento da história de forma diferente e original. Isso foi feito pelo diretor e roteirista Florian von Donnersmarck, que em Nunca Deixe de Lembrar examina os fragmentos restantes das Segunda Guerra Mundial em uma família que foi fortemente atingida.

Inspirado no pintor Gerhard Richter, Donnersmarck nos apresenta Kurt Barnert ainda pequeno, durante o período nazista na Alemanha. O sistema ditatorial tira muito de sua família. O emprego de seu pai, o apartamento na cidade, as chances de uma vida digna. Mas o maior golpe acontece quando sua tia é levada devido aos seus leves problemas mentais. Em um ambiente onde a arte era vista como um ato de rebeldia e subversão, era ela quem incentivava seu sobrinho, que carregava um dom nas mãos. Anos depois, já na escola de arte, Kurt se apaixona por Ellie Seeband, filha do professor Carl Seeband, um importante médico no período nazista e que não aceita facilmente a união dos dois. Agindo pelas escuras, o Professor tenta sabotar o relacionamento, mas falha e talvez essa união seja uma das coisas mais bonitas de todo o filme. No decorrer da história, a intromissão do Professor Seeband causa diversos problemas a Kurt e Ellie, mas em momento algum eles cogitam viver vidas separadas. O relacionamento chama a atenção por sua força e insistência, superando qualquer adversidade.

Em muitas entrevistas, o diretor Donnersmarck ressaltou a importância de rever esse tipo de acontecimento e aprender, principalmente no momento em que nos encontramos. E talvez esse seja um dos grandes méritos de Nunca Deixe de Lembrar. O roteiro é bem amarrado e é complementado pela excelente fotografia de Caleb Deschanel e espetacular trilha sonora de Max Richter, transformando a produção em uma verdadeira obra prima.

As atuações também se fazem precisas, com Cai Cohrs e Tom Schilling como o Kurt pequeno e adulto, respectivamente. E gostei muito de Sebastian Koch interpretando o Professor Seeband, com toda a frieza de um militar nazista. O filme foi indicado nas categorias de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Fotografia, infelizmente não levou nenhum dos prêmios, mas não me surpreenderia se o fizesse.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Churchill (2017)


Não são apenas as armas e soldados que ganham a guerra. Um dos britânicos mais renomados da história nos dá essa certeza. Em Churchill, do diretor Jonathan Teplitzky, conta o momento em que Winston Churchill, primeiro ministro da Inglaterra, vive a tensão que antecede o Dia D, na Segunda Guerra Mundial.

Já diria Ernest Hemingway, em Adeus as Armas: "A sabedoria dos velhos é um grande engano. Eles não se tornam mais sábios, mas sim mais prudentes". E é disso que a primeira parte de Churchill se trata. Tendo visto uma invasão anfíbio se tornar uma carnificina quatro anos antes, o primeiro ministro teme que a chamada operação Overlord, que unia todo o exército aliado, se transforme em um desastre. Em primeiro momento vemos um Churchill misterioso, envolto da fama conquistada nos seus anos de luta. Aqui já chamo a atenção para a ótima fotografia e brilhante atuação de Brian Cox. Enquanto do lado de fora ele é idolatrado como um dos maiores estadistas de seu país, dentro de si carrega um homem amargo, sem qualquer habilidade social.

Sua interferência na operação Overlord incomoda. Então Churchill é afastado e proibido de interferir. Isso o leva um precipício e o filme se torna mais tenso. Porém acredito que tenha faltado o sentimento de emergência. Esse é um filme de guerra que não mostra a guerra, mas tudo bem, ela está acontecendo. Mas o que vemos na tela, com excessão ao protagonista, é um país saudável, liberto de qualquer tensão. A maior emoção é quando a secretaria de Churchill se contrapõe a ele, dizendo algo como "eu o achava o homem mais corajoso do mundo, agora vejo que não". Isso provoca a mudança que ele precisava para achar essa nova forma de guerrear: o discurso, que é capaz de unir o povo e torná-lo mais forte.

A direção de Jonathan Teplitzky é precisa, a fotografia de David Higgs, primorosa. Só senti falta de mais emoção no roteiro de Alex von Tunzelmann. Mas no fim Churchill é um bom filme. Um recorte da vida pessoal, profissional e personalidade de Winston Churchill, exposta de uma maneira mais tensa que a própria guerra, através de conflitos externos e internos. Para quem tem um maior conhecimento da Segunda Guerra Mundial, achará um filme bem montado, mas para aqueles que não sabem muito, Churchill não ajudará nesse quesito, e é só por isso que não podemos dizer que se trata de um dos melhores filmes sobre o assunto.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Democracia em Vertigem (2019)


Acredito que uma das coisas mais importantes que aprendi enquanto estudava jornalismo foi sempre olhar os dois lados da moeda e o quanto eles vão parecer corretos aos olhos de quem diz. A imparcialidade é algo impossível de existir.  A partir do momento em que começamos a aprender, já adquirimos bagagem cultural e nos tornamos parciais. Mas é importante abrir os olhos para os dois lados e dar devida atenção a eles. Esse estudo se fez importante para assistir Democracia em Vertigem, novo documentário de Petra Costa, que já havia feito um excelente trabalho em Elena (2012) e Olmo e a Gaivota (2014).

A exclusividade de Democracia em Vertigem vem das experiências pessoais de Petra Costa, filha de pais militantes, a vida política já veio atrelada a ela. Recortes dessa vida são colocados em cena, como ela diz, a democracia brasileira e ela têm quase a mesma idade. Passando pela construção de Brasília, ditadura militar e finalmente a conquista da democracia, a diretora faz observações interessantes sobre o trajeto do PT, da criação do partido até os problemas que enfrenta hoje.

Se Democracia em Vertigem é partidário? Claro que sim. Petra usa o cinema como forma de expressar seus ideais, como deveria ser. Mas ela também é justa. Entende que nem tudo que o PT fez foi correto, defende o partido de acordo com sua vontade de um país melhor, mas não esquece de apontar os erros cometidos por seus integrantes. Confesso que me surpreendi quando ela comenta que Lula começou a fazer tudo aquilo que dizia ser contra após sua reeleição.

Democracia em Vertigem é um filme que todos deveriam assistir, independente da opinião política. O documentário não é apenas um manifesto partidário, como muitos apontam, mas a história da democracia brasileira, da luta para sua conquista e o declínio em que se encontra. Petra Costa faz observações interessantes, nada lhe passa despercebido. Talvez seja dessa visão que precisamos para entender um pouco melhor o que vem acontecendo, basta assistí-lo com disposição para entender o que a diretora quer dizer.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen, 2006)


Se analisarmos a situação de muitos países podemos ver que todos estão em uma espécie de guerra. E, senão todos, alguns trazem em comum um período em que viveram diante do regime ditatorial. A Vida dos Outros, escrito e dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck, nos mostra uma verdade ludibriada por esses sistemas, nos mostra que o conflito armado não é o maior medo para generais, coronéis ou capitães, mas sim o uso da palavra, que amplia ideias e ideais e incentiva o questionamento de tudo o que é imposto.

Donnersmarck trabalha com dois lados do conflito bem e mal durante o período em que a Stasi (a polícia secreta da Alemanha Oriental) vigiava seus artistas. De um lado temos o casal Georg Dreyman (Sebastian Koch) e Christa-Maria Sieland, ele diretor de teatro, ela atriz. Ambos vivem alheio aos acontecimentos políticos do país, até que uma reviravolta os colocam como principais arquitetos do declínio que está prestes a acontecer. Do outro lado, o mais surpreendente, o "camarada" Gerd Wiesler (Ulrich Mühe), agente rigoroso da Stasi que se encarrega da vigia sobre o casal. Sua transformação é muito maior e começa depois que Dreyman toca Sonata de Um Homem Bom, a partir daquele momento o agente se questiona se o que está fazendo é certo ou errado.

Essas duas transformações são expostas lentamente, em cenas com poucos diálogos sobre o assunto, deixando muita coisa por conta do espectador. Mas isso não foi uma opção ruim tomada pelo diretor alemão, dando liberdade a quem acompanha a história, nos deixa com o mesmo sentimento de descoberta provado pelos personagens. Depois de Sonata de Um Homem Bom vemos a tensão nas decisões, uma batalha psicológica que busca discernir o certo e o errado diante da realidade em que se encontram, deixa o filme cada vez mais intenso. Uma intensidade que nos convida a entrar naquele momento idealizado por Donnersmarck, onde precisamos decidir o que é certo ou errado, quer eles existam ou não.

O mais interessante em A Vida dos Outros é como a história se mistura com a ficção. Nada é tão simples e apegado a clichês. Embora o acidente, que serve como uma premissa do fim, pareça a solução mais fácil para começar o último arco, é na verdade algo premeditado e ainda assim não podíamos esperar por algo daquele tipo. O trabalho de Donnersmarck é excelente, a sequência de cenas é uma coisa linda de se ver. A única coisa da qual me arrependo é ter demorado tanto para assistí-lo.

sábado, 22 de junho de 2019

Glauber o Filme, Labirinto do Brasil (2003)


Como começar a falar de uma pessoa tão polêmica como foi o Mestre Glauber Rocha? Como apresentá-lo para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de ver seu trabalho? Sempre penso nisso quando entro em uma discussão sobre o cinema nacional. O diretor Silvio Tendler traz as respostas com o documentário Glauber o Filme, Labirinto do Brasil, que decorre com toda a excentricidade do diretor e depoimentos emocionantes de quem esteve ao seu lado durante toda sua carreira.

Existem muitas coisas escritas sobre Glauber Rocha (para quem estiver disposto indico A Primavera do Dragão, de Nelson Motta, e Glauber - O Leão de Veneza, de Pedro Del Pichia e Virginia Murano). Mas nada melhor que um documentário, que mesmo curto (com cerca de 90 minutos), revela muito de um cineasta amado e odiado em proporções semelhantes. Outra coisa boa desse documentário é ver pessoas que trabalharam com Glauber em depoimentos engraçados e emocionantes. Nomes como Darcy Ribeiro, Hugo Carvana, João Ubaldo Ribeiro, Cacá Diegues, Manduka e Jards Macalé prestam sua homenagem.

A importância de Glauber Rocha para o Brasil é vista logo no inicio do doc. Seu velório e enterro reúnem uma grande quantidade de amigos, familiares e fãs no Parque Lage e na Igreja São João Batista, no Rio de Janeiro. O ano era 1981, mas ainda quando Tendler entrevistava alguns dos personagens para o documentário, podia-se ver uma emoção presa na garganta, emoção que enche os olhos e tira a voz de Macalé em dado momento. Vê-se que esse era o Mestre Glauber, um personagem excêntrico, claro, mas inesquecível.

Com tanta controvérsia e "viagens", mesmo através de depoimentos é difícil de entender Glauber. Mas fica a certeza de que ele entendia sobre tudo o que falava e quando qualquer um que o ouvisse se colocasse a pensar, lhe daria total razão. Glauber o Filme, Labirinto do Brasil se mostra forte em seu papel emocional, mas Tendler peca nas transições entre um tema e outro, com uma computação gráfica feia e que foge da estética do documentário. Fora isso, temos presente a música clássica adorada por Glauber e toda a sua excentricidade, o que já vale muito a pena ver.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969)


No dia em que se comemora o Cinema Nacional, a Cinemateca Brasileira exibiu um dos filmes mais icônico do país: O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha, que também completou 50 anos de existência. O filme rendeu a Glauber o prêmio de Melhor Diretor em Cannes e é visto por muitos como a melhor obra de sua filmografia.

O filme até parece uma sequência de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de onde nasceu Antônio das Mortes (Maurício do Valle). Na história, Antônio está de volta para enfrentar um novo cangaceiro, depois de matar Lampião e Corisco, seu novo adversário é Coirana, interpretado por Lorival Pariz. É difícil decidir qual dos dois lados atua como antagonista. Enquanto Antônio das Mortes defende uma vila a contrato dos ricos da cidade, Coirana busca comida e paz para o seu povo. Todo esse questionamento é contado em alegoria, que mistura muito da cultura nordestina (como o cordel e o folclore) e a ópera que Glauber tanto gostava. 

E questionamentos não faltam. Glauber tinha essa necessidade de mostrar para o mundo o valor da cultura brasileira, em especial a nordestina (um pouco disso pode ser visto no livro 'A Primavera do Dragão', de Nelson Motta), e isso notamos logo no começo, quando um professor ensina algumas crianças as datas importantes do país. No fim da lição ele relembra o ano em que Lampião morreu, 1938, dando ao fato o mesmo valor de outras comemorações. E seu partidarismo político, questionando a reforma agrária, que prometia melhoras para o país. Mas tendo como foco a aridez do sertão nordestino, essa parecia uma ideia distante, que não atingiria o povo tão carente defendido por Coirana.

O decorrer de toda a história trata da luta do povo contra um sistema que o exclui do que deveria ser seu por direito. Nisso vemos que essa luta se auto recicla, com a morte de Lampião, surge Coirana, que quando é morto, é substituído por seu próprio executor, Antônio das Mortes. A mensagem explícita pode ser de que a luta do povo nunca morre, mas visto mais a fundo, não importa quantos coronéis e capitães apareçam, enquanto houver desigualdade e sofrimento, novos cangaceiros surgirão em busca da dignidade merecida de qualquer ser humano. Já havia assistido  Já havia assistido Deus e o Diabo...e Terra em Transe (1967) na tela grande e lamentava ter perdido O Dragão da Maldade quando tive chance, mas agora que o assisti, só queria que esses filmes fossem exibidos mais vezes nos cinemas, além de seu valor histórico, sua importância social ainda é tão relevante quanto na década de 1960.

domingo, 28 de abril de 2019

Aika (2018)


A situação de refugiados virou um tema recorrente em diversos países. Moscou, na Rússia, não é excessão. O filme dirigido por Sergey Dvortsevoy traz uma dessas situação a tela. Aika nos chama a atenção para as dificuldades enfrentadas por quem procura uma vida melhor, e mais justa, em outro país. Além disso, existe uma crítica (que pode decorrer do meu próprio entendimento) a grupos de incentivo que não veem a situação da pessoas, que muitas vezes se enganam com o que escutam.

Aika é a personagem-título de quem falamos, de origem cazaque, ela vive ilegalmente em Moscou. O filme começa com a sua fuga do hospital, após dar a luz uma criança. Suas condições não permitem que cuide de um filho, além da falta de dinheiro e comida, deve para agiotas russos. O dinheiro foi emprestado para que pudesse realizar seu sonho: abrir uma fábrica de custura. Daí vem a crítica da qual falei. Sempre com um livro daqueles "fique rico pensando" em mãos, ela perambula pela cidade atrás de subempregos, onde é explorada devido sua situação de imigrante.

O assunto parece ter ganhado destaque no cinema nos últimos meses. Aiko foi indicado a Palma de Ouro, na edição de 2018 do Festival de Cannes. Junto dele estavam Cafarnaum (da libanesa Nadine Labaki) e Assunto de Família (de Kore-eda), ambos abordam a vida de pessoas marginalizadas, sejam imigrantes ou emigrantes, cada um com seu diferencial. Enquanto o filme libanês trata o assunto a partir de uma criança, Kore-eda reúne uma "família" inteira. Já no caso de Aika, é uma mulher solitária, que passa por situações humilhantes devido as suas condições de vida, tudo isso em uma ótima atuação de Samal Yeslyamova, assumindo o papel da protagonista.

No final da sessão, um senhor reclamou dizendo que o filme não era bom. Acredito que Aika seja isso, ou um filme muito bom, ou um filme muito ruim. Depende da sua percepção das coisas e o quanto está disposto a pensar na situação pela qual a protagonista passa. Na minha opinião, Dvortsevoy é certeiro. Gostei da câmera meio solta na fuga do hospital, da aproximação da personagem e dos cenários frio e solitários como deveriam ser. Aika é um excelente filme e se faz necessário diante do cenário que muitos países se encontram em relação a imigração.

sábado, 27 de abril de 2019

Histórias que Nosso Cinema (não) Contava (2018)


Houve um momento no cinema Paulista em que nada parecia ser levado a sério. Foi o surgimento do que muitos conhecem como pornochanchada, enquanto outros o rotulam como cinema marginal. Independente do nome, foi ali pelas décadas de 1970 e 1980 que ele deu as caras, tendo grandes diretores como Carlos Reichenbach, Ody Fraga, Neville D'Almeida e tantos outros nomes. Mas embora parecesse, nem tudo era piada e é isso que a diretora Fernanda Pessoa nos mostra em seu primeiro longa-metragem: Histórias que o Nosso Cinema (não) Contava.

Com recortes de 30 filmes da época, entre eles A Super Fêmea (1973), Cada um Dá o Que Tem (1975), Eu Transo, Ela Transa (1972) e O Enterro da Cafetina (1971), Pessoa mostra que nem tudo naquele cinema era piada ou vulgaridade. Na época em que a ditadura reprimia e seu governo fazia o que bem entendia, tanta piada era usada para burlar o sistema e esconder o que poderia ser visto nas entrelinhas, como afirma Neville D'Almeida que em Neville D'Almeida: Cronista da Beleza e do Caos (2018).

Na sequência montada pela diretora vemos falas e imagens que atuam contra o que acontecia no país. Uma crítica forte, feita através do sarcasmo, sobre o caminho que a sociedade brasileira estava sendo empurrada pelo governo ditatorial. Além disso, existia também uma forte caminhada contra a violência contra a mulher e a homofobia, que na época já eram combatidas por quem conseguia se fazer ver.

O mais interessante desse filme é a montagem. Pode parecer fácil produzir algo sem ao menos gravar uma cena. Mas achar o formato adequado de se fazer isso é o verdadeiro trabalho, mas nisso Fernanda Pessoa foi certeira. A sequência de cenas parecem se tratar de um único filme, se tivéssemos os mesmo personagens em todas elas, teríamos certeza que seria o caso. Foi um ótimo trabalho da diretora, que segue um linha de tempo eficaz e nos mostra que nem tudo foi pornochanchada.

sábado, 20 de abril de 2019

Ex-Pajé (2018)



Logo no início somos alertados para o etnocídio, que consiste na destruição da civilização ou cultura de uma etnia por outro grupo étnico. Diante de todas as adversidades que vemos o povo indígena enfrentar nos dias de hoje, Ex-Pajé trabalha esse aspecto, onde um ex-pajé é sucumbido pela igreja evangélica. Escrito e dirigido por Luiz Bolognesi, o filme nos mostra um pouco da cultura indígena e sua necessidade para o povo.

Perpera, hoje usando roupas sociais e atuando como zelador de uma igreja evangélica, já foi pajé na tribo Paiter Suruí, em Rondônia. Durante todo o filme, que traz uma mistura de documentário com pouca ficção, ele relembra a importância dos espíritos da natureza para o bem estar da tribo, e como é perigoso andar contra isso. Embora toda a tribo tenha aceitado a nova religião, quando necessário apelam para os espíritos da natureza e vêm sua magia dar resultados.

Bolognesi foi responsável por ficções premiadas, como 'Bingo: O Rei das Manhãs' e 'Como os Nossos Pais". Mas é um ex-estudante de antropologia, fato que o ajudou muito nessa produção. Sua primeira ideia era criar uma série, em 2015, mas mudou assim que soube sobre a situação da tribo em relação ao pajé. O ponto abordado pelo diretor é interessante, mostra a necessidade de uma tribo em ter seu pajé e como é injustamente privada disso, por uma cultura invasora que ameaça a tribo através de um terror psicológico.

Sempre gosto de lembrar que o papel do Cinema vai além do entretenimento. Hoje vemos muitos filmes, alguns documentais e outros pura ficção, que mostram a realidade de tribos indígenas que não vemos na TV, e atuam no cenário cinematográfico como uma denuncia ao que vem acontecendo. O longa de Luiz Bolognesi mostra sua importância, nos alertando para o que está acontecendo e o quanto isso pode prejudicar uma comunidade nativa. No ano passado, Ex-Pajé recebeu o prêmio Abraccine no festival É Tudo Verdade, o que lhe garantiu mais visibilidade e fôlego para essa luta que não podemos deixar passar despercebida.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Três Anúncios Para um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, 2018)


Morar em uma cidade onde todos se conhecem e qualquer acontecimento, o mínimo que seja, chama atenção é algo bem comum no interior de qualquer país. Mas se algo pequeno chama atenção, o que fariam três anúncios em outdoors? O diretor e roteirista Martin McDonagh trabalha com essa ideia em Três Anúncios Para um Crime, onde as ações individuais interferem de maneira drástica na vida coletiva de uma cidade no Missouri.

Mildred (Frances McDormand, vencedora do Oscar de Melhor Atriz) é uma mãe que busca justiça pelo assassinato de sua filha. Responsável pelos três anúncios que fazem a calmaria da cidade virar uma guerra, ela aponta o chefe de polícia, Willoughby (Woody Harrelson), como responsável pela impunidade. Porém, o policial Jason Dixon (Sam Rockwell, melhor ator coadjuvante) é  o mais afetado por isso, começando um conflito aberto com Mildred e qualquer um que pareça lhe apoiar.

O interessante do trabalho de McDonagh é a criação dos personagens. Todos ali têm motivos convincentes para suas ações, é difícil escolher um lado. Enquanto a mãe sofre com a perda da filha, o chefe de polícia é um sujeito respeitado e realmente busca solucionar o caso, sendo impedido pela real falta de pistas. Já o policial Dixon, digamos que possui uma inteligência deveras limitada. Mas toda a jornada desses três personagens nos mostra como a ação de um indivíduo pode atingir toda uma sociedade.

No fim, Três Anúncios Para um Crime é um filme que entende o que é preciso para criar um ambiente de tensão mesmo com poucos personagens. Com algumas sacadas de humor negro, que joga com o racismo e preconceitos de sulistas norte americanos, a história caminha em busca de redenção para seus personagens. Além disso, é uma excelente produção, com fotografia e trilha sonora excepcionais. Vale cada minuto de cena.

domingo, 14 de abril de 2019

Estou me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar (2019)



É TUDO VERDADE - Tudo começou com a necessidade do diretor Marcelo Gomes de revisitar uma de suas memórias de criança. Quando jovem, junto a seu pai que era fiscal, visitou a cidade de Toritama, um cidade entre o sertão e o litoral de Pernambuco.

Uma cidade agitada com calçadas cobertas de jeans e motos para cima e para baixo entram em conflito com as memórias de Marcelo. Em Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar ao invés do Silêncio e calmaria de uma cidade interiorana, o que temos é o constante barulho de máquinas que trabalham dia e noite sem cessar. Mas para que tanto trabalho? Para passar a semana de carnaval na praia.

Diante de tantos filmes relativos a carnaval que foram lançados esse ano,  Estou Me Guardando... é o que mais me chamou atenção. Talvez seja sua ideia mais intimista, nada é ensaiado, os discursos surgem ali, no calor do momento.

Mas Marcelo Gomes nos chama atenção para um fator importante. Embora o trabalho autônomo pareça uma boa opção (a ideia de fazer seu próprio tempo e dinheiro é sedutora), qual o preço que se paga por isso? O preço são as geladeiras e televisores vendidos por um final de semana, o preço é a falta de garantias para o futuro.

Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar é extremamente importante diante da situação econômica pela qual passamos. Embora o trabalho por conta própria pareça uma excelente opção, é necessário pensar se é mesmo o caminho para se trilhar uma vida inteira. E isso o povo de Toritama vem nos ensinar.

Marceline. Uma Mulher. Um Século (Marceline. Une Femme. Un Siècle, 2018)


É TUDO VERDADE - Quantas histórias vivemos em um ano? Em Marceline. Uma Mulher. Um Século vemos histórias de 100 anos. O documentário da diretora francesa Cordelia Dvorák traz a história de vida da cineasta e escritora Marceline Loridan-Ivens, nascida em 1968 em Paris. De família judia, vinda a Polônia, ainda jovem foi deportada justamente com seu pai, passando a viver no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau.

Marceline é uma mulher forte. Não é preciso esperar ela dizer para notar isso, basta ver a determinação em seus olhos. Cordelia a segue em qualquer lugar que ela vá, embora a maior parte do cenário seja a sua sala, também se destaca a sua vaidade em outros ambientes, como o salão de beleza, onde ela vai retocar o vermelho de seus cabelos. As cenas gravadas pela diretora se misturam com filmes como Crônicas de um Verão (1961) e 17th Parallel - Vietnam in War (1968), e desde do início de seu carreira, vemos a determinação de Marceline.

Sua estadia em Auschwitz a deixou mais forte. Foi lá que Marceline conheceu Simone Veil, futura ministra da saúde que defendeu a despenalização da interrupção voluntária da gravidez na França. fortemnete influencia e determina, Marceline fez o que mais gostava, um cinema que buscava o cotidiano. O dia a dia das pessoas eram destaques em seus filmes, na China foram inumeras horas de gravação, que resultou em Como Yukong Moveu Moveu as Montanhas, um retrato sobre a vida do povo chinês e seu desenvolvimento social e cultural.

Marceline. Uma Mulher. Um Século é um documentário que merece atenção. Além da vida impressionate de Marceline (que faleceu em 2018), toda a produção de Cordelia Dvorák é excelente. A direto soube captar toda a emoção que as lembranças de Marceline poderiam causar nela. O filme é um reflexo de uma pessoa que aprendeu muito em seus 100 anos e através dele, tem a oportunidade de nos ensinar um pouco disso tudo.

sábado, 13 de abril de 2019

Meu Amigo Fela (2019)


É TUDO VERDADE - Fela Kuti, nigeriano multi-instrumentista e um dos criadores do gênero afrobeat. Só ai já daria um bom documentário, mas o diretor Joel Zito Araújo e sua equipe foram fundo na história do nigeriano e buscaram sua história na raiz. Tudo começou quando Carlos Moore entrou em contato com Joel Zito, depois de amizade formada, surgiu Meu Amigo Fela, uma produção que explora toda a complexidade de Fela, desde quando mal sabia sobre sua própria cultura, até sua morte por decorrência da aids.

Fela Kuti não foi só um ídolo da música pop nos anos 1960/1970. Quando levou sua banda em turnê nos EUA, conheceu Sandra Smith, ativista e partidária dos Panteras Negras. Sua influência sobre Fela foi tamanha que mudou totalmente sua visão política e, consequentemente, as letras de suas músicas. A partir daí, Kuti virou um ativista político, sendo um dos poucos nigerianos que tinham a coragem de se levantar contra o governo de seu país, que logo passou por um período militarista. Mas isso o tornou um personagem excêntrico. Possuía 27 mulheres que, segundo Carlos, eram totalmente submissas. Já perto do fim, em sua casa ele era uma pessoa completamente diferente do que mostra nos palcos e palanques por onde passava. Essa excentricidade é lembrada por Carlos Moore, Sandra Smith e muitos outros personagens que fizeram parte de sua vida.

Mas na vida de Fela tudo tinha um motivo forte. Se a necessidade fez com que ele usasse o que aprendeu com Sandra Smith para conscientizar o mundo sobre o que vinha acontecendo na Nigéria, sua atividade política lhe trouxe muitos problemas. Mas esse ativismos veio de berço, sua mãe sempre lutou pelo direito das mulheres e do povo, quando poucas pessoas tinham coragem para isso no mundo, menos ainda na Nigéria. Mas suas criticas ao governo militar fez com que se tornasse um alvo e isso o levou a loucura. 

Joel Zito fez um trabalho surpreendente ao lado de Carlos Moore. Abordando política através de suas músicas, Fela Kuti nunca foi mais presente no cenário brasileiro, onde os governantes buscam acabar com todo o pouco incentivo cultural do país. Mais uma vez vemos a importância e necessidade da produção de documentários, histórias como a de Fela não podem ser esquecidas, por isso a importância de festivais como o É Tudo Verdade. E falando em Brasil, a homenagem que Joel Zito fez a Marielle Franco arrancou aplausos do publico presente cinema.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

A Beira (The Brink, 2019)


É TUDO VERDADE - The Brink é um documentário perigoso. Talvez não seja totalmente partidário, já que a diretora Alison Klayman sempre questiona as ações de Steve Bannon. Mas certamente, como era de se esperar, existe um forte discurso de extrema direita, pois estamos falando do maior percurso populista do mundo, como é mostrado no doc.

Quem não conhece Bannon, lá vai uma rápida biografia de sua vida política. Ex-estrategista-chefe da Casa Branca, ele foi exonerado de seu cargo pouco depois conseguir a eleição de Trump. Ainda assim seguiu influenciando a população norte americana e européia, defendendo sua visão populista global, durante as eleições de 2018. Durante esse tempo foi acompanhado mundo a fora por Klayman, que captou momentos tensos e jantares que Bannon classifica como "casual". 

Existe algo surpreendente em The Brinks. Ao contrário do que pode parecer, Steve Bannon é um cara carismático. Isso faz parte do seu poder de convencimento. Embora não pareça ter convencido as pessoas que estavam no cinema (os bastidores colocam seu discurso em xeque), seu humor afiado conseguiu algumas risadas. Porém, quando seus argumentos são contrariados, ele pode se tornar uma pessoa desprezível, racista e outras coisas que prefiro não mencionar. 

Umas das coisas boas de um documentário é isso, ele não é uma propaganda. Tendo noção disso, a diretora dá espaço para outras vozes. Todos os lados de Bannon são expostos e vemos como muitas de suas ideias parecem fazer sentido para um grupo de pessoas, outras vezes vemos um distorção dos fatos. No fim, gostei do resultado que Alison Klayman alcançou com The Brinks, é um documentário importante para o que está acontecendo na política mundial nos dias de hoje.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Defensora (Advocate, 2019)


É TUDO VERDADE - Nem só de ficção vive o cinema. O Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade é a prova disso.  Chegando a sua 24° edição, o evento reúne 66 documentários nacionais e internacionais que estão sendo exibidos, gratuitamente, em São Paulo e no Rio.

O primeiro longa que consegui ver foi Defensora, da diretora Rachel Leah Jones e Philippe Bellaïche. Lea Tsemel é a personagem central do doc. Advogada Israelense, ela defende palestinos há cinco décadas. Alguns deles são manifestantes não-violentos, militantes armados, fundamentalistas ou feministas, mas o que carregam em comum são as acusações de serem terroristas, mesmo quando não o são.

A produção de Leah Jones e Bellaïche nos mostra uma defensora pública que deveria ser modelo para muitos outros. Lutando contra um sistema nada justo e totalmente partidária nos conflitos entre palestinos e israelenses, Tsemel não se deixa intimidar e  aos poucos busca mudar a situação jurídica de seu país. É triste quando ela afirma que a única vitória que ela alcança é diminuir em um ou dois anos a pena de seus clientes, mesmo quando vemos os casos em que ela trabalha durante o filme (onde vemos duas pessoas desprovidas de culpa e ainda assim julgadas como terroristas). Mas seu empenho é inspirador. São poucos os que conseguiriam ir até um tribunal sabendo que perderia o caso, e são muito menos os que lutariam contra um sistema tão retrógrado, expondo a si e sua família a uma população muitas vezes violenta.

Muitas vezes durante sua carreira, Lea foi denominada advogada do diabo, quando na verdade apenas defendia aqueles que lutavam por seu direito. Com o tempo começou a ser conhecida como uma defensora dos Direitos Humanos, recebendo alguns admiradores. Acredito que essa seja uma das maiores missões do É Tudo Verdade, mostrar as pessoas o que acontece em todo o mundo, dando visibilidade para quem a merece e nos ensinando através de histórias reais.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Sai de Baixo - O Filme (2019)


As noites de domingo de 1997 a 2002 sempre ela embalada por um dos melhores programas de comédia da TV brasileira. Sai de Baixo era o que unia a família para terminar (ou começar) a semana na frente te dá Tv. Agora com roteiro de Miguel Falabella e direção de Cris D'Amato, a família chega a tela grande, com Sai de Baixo - O Filme.

Caco Antibes sai da prisão, onde estava por uma de suas artimanhas, e chega ao prédio para descobrir que sua família está dividindo um pequeno apartamento de zelador com Ribamar. Então a família precisa de um novo plano para conseguirem, finalmente, ficar ricos. O plano surge quando um prima de Magda os "contrata" para atravessar algumas pedras preciosas para fora do país, não vai ser problemas nenhum roubar essas pedras, já que como do Magda "ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de peidão". Mas estamos falando da família mais desastrosa da TV brasileira, nada é simples.

Quem estava acostumado a ver Miguel Falabella nos palcos pode ter achado um pouco estranho vê-lo ali, na tela grande. É uma outra mídia e em relação ao que víamos na TV, a ausência da plateia causa um certo efeito, mas nada que atrapalhe a atuação dos atores. Falabella é afiado, capitaneia o elenco a todo momento. Enquanto Marisa Orth continua com suas sacadas que levam o espectador as gargalhadas, coisa simples, mas que funciona bem.

Antes de ir ao cinema, fiz questão de esquecer tudo o que Tom Cavalcanti fez depois da série na TV. Não precisei de muito esforço, já que não tinha gostado de nada daqueles programas ao estilo Show do Tom. Valeu a pena, gostei do trabalho dele no filme, dando mais animação com seus dois personagens. A adição de novos personagens também foi uma ótima escolha, dando mais dinâmica a história, segurando um tempo além do que era necessário na TV.

O que a diretora Cris D'Amato oferece é um filme com as melhores características de Sai de Baixo, contando com um elenco em entrosado. Nisso, não vejo problemas com a produção, no início fiquei com certo receio já que não trabalhariam apenas em um palco. Mas no fim tudo deu certo, valeu a pena assistir quase 30 minutos de comerciais e trailers antes da sessão começar.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Depois Daquele Baile (2006)


Lembrei de Depois Daquele Baile enquanto falava sobre a importância de atores como Lima Duarte para a TV brasileira, e o infeliz desconhecimento que tenho de atores da nova geração. O filme de estreia de Roberto Bomtempo como diretor de cinema (até então ele só havia dirigido telenovelas) é de uma leveza e simplicidade que surpreende.

Um elenco forte (Marcos Caruso, Irene Ravache e Lima Duarte) e uma história simples, desde que bem amarrada, é o que dá aquela sensação de tempo bem aproveitado em um final de domingo. É isso que o diretor Roberto Bomtempo nos entrega em Depois Daquele Baile.

Com brilhantes atuações de Marcos Caruso, Irene Ravache e Lima Duarte, a história nos mostra um triangulo amoroso entre amigos. Esse relacionamento traz nostalgia a alguns personagens e vemos concepções diferentes do passado de cada um, enquanto Caruso sente falta do que passou, Lima Duarte tenta esquecer e fica desconcertado sempre que o assunto entra em destaque. Já Ravache (que atuação!) está feliz com seu presente e mesmo achando o passado essencial para sermos quem somos, vive um dia de cada vez, sem pensar muito no amanhã.

Embora simples, o filme traz boas surpresas que nos deixam mais envolvidos com os personagens. Em alguns momentos procurei o motivo do título, até achei que ele apareceria mais para frente e é isso mesmo, mas sempre, como garante Caruso, remetendo o passado.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Cafarnaum (Capharnaüm, 2018)


O Festival de Cannes é a porta de entrada para grandes produções. Ovacionado por 15 minutos no festival, onde levou a Palma de Ouro (maior prêmio), Cafarnaum é o novo trabalho da diretora libanesa Nadine Labaki (do excelente E Agora Onde Vamos?, 2011). A história nos leva a uma odisseia pelas favelas se Beirute, preenchida de tensão e indignação.

Zain (Zain Al Rafeea) acha que tem 12 anos - ele ou a família não sabem ao certo -, mas está apto a empilhar mercadorias no venda onde trabalha, entregar botijões de gás e vender suco pelas ruas, tudo para garantir seu sustendo e de mais uma leva de irmãos. E essa é sua maior indignação. Não parece se importar em trabalhar, o que mais o revolta e seus pais continuarem tendo filhos diante daquela miséria. Por isso deseja processá-los. Mas a história não é tão simples assim, existe uma trajetória que Zain nos leva, mostrando as atrocidades na qual diversos refugiados estão expostos.

Em sua terceira produção, Nadine Labaki aposta em não atores. Mas esses não atores fazem bem seus papéis, já que não vivem tão distante dessa "ficção". Yordanos Shiferaw, que no filme e na vida real é uma imigrante etíope é presa por falta de identificação, dias depois de finalizadas as filmagens, ela é presa pelo mesmo motivo. Zain também é um refugiado sírio que vive praticamente a mesma situação interpretada em Cafarnaum.

Cafarnaum encara uma verdade mundial. Estamos em uma época em que diversas pessoas precisam sair de seu lar para encarar algo incerto, tudo isso por conflitos políticos e, algumas vezes, desastres naturais. Nadine foi fundo na situação vivida por muitos deles e expõe toda essa dificuldade, que precisa ser combatida urgentemente. Em meio a todo caos, Cafarnaum é lindo e mais uma vez vemos a arte chamando a atenção para casos urgentes, que merecem nossa atenção.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Roma (2018)


Ver um filme no cinema é uma experiência totalmente diferente. Queria ter assistido Roma na tela grande, mas por falta de tempo ou sessões isso não foi possível. Confesso que assistir na TV de casa, embora mais confortável, foi tum pouco decepcionante. Outro problema foi a demora para assistir. Roma é um filme gigante, afinal, é uma produção de Alfonso Cuarón, mas criei expectativas que dificilmente seria atingida. Mas como eu disse, é uma questão de experiência. Mea culpa.

Quanto ao filme, a história narra, sem muitas pretensões, a vida de Cleo (a estreante Yalitza Aparício), empregada doméstica e babá de uma família de classe média alta, no México dos anos 1970. Em sua folga Cleo se junta a Adela (outra empregada da família, interpretada por Nancy Garcia) para ir ao cinema com seus namorados, Fermín e Ramon. Cleo fica desnorteada quando, em um momento mais necessário, descobre que Firmín não quer um compromisso sério. Mas encontra apoio na família para quem trabalha, que apesar de tudo também vive seu momento mais trágico.

O filme é como uma auto biografia de Alfonso Cuarón, mesmo não o trazendo como personagem principal. O diretor aproveita o protagonismo de Yelitza para montar uma trama corriqueira, longe do incomum, mas muito próxima de uma obra de arte. Embora simples e livre de julgamentos, o novo trabalho de Cuarón conta com momentos de tensão. A cena em que Antônio (pai da família) chega com seu poderoso Galaxy e precisa colocá-lo em uma garagem minúscula desperta apreensão, não só do expectador, mas de todos os personagens que param para ver a manobra.

O filme me lembrou duas produções nacionais. Uma delas é o maravilhoso Que Horas Ela Volta (Anna Muylaert, 2015), o caso da empregada doméstica que faz parte da família quando convém, mas é sempre lembrada de qual é sua posição. Outro filme é Como Nossos Pais (Laís Bodanzky, 2017), em relação ao casal, que vêm o seu relacionamento chegando ao fim, mas negam tal situação.

Uma curiosidade interessante é que Cuarón fez quase tudo no filme. A direção é sua, o roteiro (feito ao mesmo tempo em que as cenas eram gravadas), produção, fotografia... Por isso Roma é um filme de detalhes, é preciso de muita atenção para não perder nenhum deles. Talvez isso garanta ao filme o título de obra de arte, claro que merecidamente, pois Alfonso Cuarón, com tanta sutileza, surpreende.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O Lagosta (The Lobster, 2015)


Muito me falaram sobre a qualidade de O Lagosta, ou seu antecessor, Dente Canino (2009). Mas meu primeiro contato com o diretor Yorgos Lanthimos foi por Kinetta, filme exibido na Mostra de Cinema Grego, na Cinemateca. O que mais me chamou atenção foi a excentricidade do diretor, fazendo uma experimentação humana. Com O Lagosta não poderia ser diferente. Lanthimos, ao lado de Efthimis Filippou, faz um filme anômalo, que lhe garantiu a indicação de Roteiro Original no Oscar.

Em um futuro não muito distante, é proibido ser solteiro. David (Colin Farrell) é solteiro e por isso é mandado para um hotel onde deverá se "apaixonar" e achar uma companheira. Caso isso não aconteça, ele será transformado em um animal de sua escolha, daí vem o título Lagosta. Sua escolha implica na longo tempo de vida e disposição sexual do animal.

Porém, nem todos aqueles que não encontram um par são transformados em animais. Alguns conseguem fugir antes que isso aconteça. Mas logo são caçados pelos os hóspedes do hotel, que a cada captura ganham mais um dia em sua busca pelo romance ideal.

O Lagosta é, sem dúvida alguma, uma crítica a sociedade e o conservadorismo. Essa obrigação de ser casado vai de encontro com a necessidade de pessoas estarem em um relacionamento concreto para que seja melhor aceito pela sociedade. Isso fica ainda mais explícito quando dirigentes do hotel alegam que no caso do casal não conseguir resolver seus problemas, uma criança será adicionada para que os ajude nesses conflitos.

Embora seja um filme longo, que se torna ainda maior em sua melancolia, O Lagosta é uma ótima produção de Yorgos Lanthimos. Esse é o que primeiros longa em língua inglesa, porta de entrada para o cinema mundial, onde agora está concorrendo (com boas chances) ao Oscar de Melhor Filme com A Favorita (Favourite, 2018), filme com Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz (também presente em O Lagosta), que pretendo ver em breve.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Western (2017)


Existem muitos filmes bons sendo feitos em lugares mais distantes. Filmes que infelizmente não chegam aos cinemas comerciais e, infelizmente, pouco são exibidos no circuito alternativo. Um desses filmes é Western, da diretora Valeska Grisebach. O longa explora a complexidade do relacionamento humano diante de choques de cultura, costumes e idioma.

Um grupo de trabalhadores alemães chegam a Bulgária para construir uma hidrelétrica. Nesse projeto eles encontram três problemas. O primeiro é o cascalho necessário para o concreto que nao fora entregue. Também existe um conflito com moradores de uma vila que fica entre eles e a fronteira com a Grécia e, por fim, o racionamento de água, já que o poço mais próximos é usado por três vilas.

Com o trabalho parado devido a falta de água e cascalho, Meinhard (Meinhard Neumann) vai até a vila para passar o tempo e explorar esse lugar desconhecido. Seu jeito pacato e de poucas palavras vai conquistando a confiança dos moradores e logo se torna amigo de boas parte deles.

Ao contrário dele, Vicent (Reinhardt Wetrek), responsável pela obra da hidrelétrica, só quer terminar logo seu trabalho e voltar para a Alemanha. Seu jeito grosseiro acaba causando conflito com os moradores, logo antes de os conhecerem. Além de implicar com algumas mulheres da vila, uma de suas "empreitadas" é roubar a água das outras vilas para que seu trabalho seja finalizado rapidamente.

Outro personagem importante é Adrian (Syuleyman Alilov Letifov), um búlgaro que, através de uma nova amizade, transforma Meinhard em seu segurança pessoal. Ele faz a intermediação entre os trabalhadores e os moradores da vila, sempre procurando ajudar Meinhard, do qual vira um grande amigo.

Além desses desentendimento entre o alemães e os moradores locais, a história permeia na solidão irremediável vivida pelos personagens. Meinhard consegue reverter essa situação por um tempo, consegue um cavalo com o qual desenvolve uma grande afinidade. É chamado de "legionário", por causa de sua façanhas na guerra que não fica claro se existiu ou não, por moradores, o que garante certa intimidade. Mas quando tudo começa a desmoronar, ele deixa tudo de lado e embala nos ritmos bulgaros.

O diálogo ineficiente causado pela diferença do idioma e compensado com gestos e a vontade de ter alguém com quem conversar, contar histórias. O filme de Grisebach segue, de maneira positiva, aos trancos e barrancos, assim os personagens vão se entendendo e a história vai se desenrolando, como um ensaio da vontade humana.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Boi Neon (2015)


Em 2015, Boi Neon fez barulho. O filme, escrito e dirigido por Gabriel Mascaro, narra a história de Iremar, um rapaz que trabalha nas vaquejadas, mas almeja trabalhar na indústria têxtil, como estilista. 

Iremar (uma excelente atuação de Juliano Cazarré) é responsável por preparar os bois para a vaquejada, mas em seu tempo livre trabalha no seu sonho, criar modelos de roupas. Sua vida é percorrer por Pernambuco, de evento em evento, é uma vida dura, mas o sonho é grande.

O grupo de atores é pequeno, mas representativo. Além de Cazarré, temos Maeve Jinkings (como Galega), Carlos Pessoa (Zé) para dar o tom de comédia, que quebra a monotonia da vida dos personagens, em um cinema com pessoas mais descontraídas vai ser comum ouvir gargalhadas quando ele estiver em cena. Personagens também importantes são Vinícius de Oliveira (Júnior) e Alyne Santana (Cacá), que dão mais pluralidade ao elenco.

Cada personagem mostra a ousadia de Gabriel Mascaro. Não é só Iremar que foge do senso comum. Galega é uma mulher forte, motorista e mecânica de seu caminhão. A pequena Cacá é a criança que precisa crescer nesse cenário rigoroso, sempre sonhando em ter um cavalo, mas com poucas possibilidades disso acontecer. Já Júnior, mostra a vaidade de um homem, mesmo ali naquele ambiente tão rústico. A interação entre eles mostra a diversidade que quebra paradigmas, fazendo com que cada personagem seja rico em sua própria história.

A fotografia, de Diego Garcia, estabelece uma estética crua, que explora a beleza árida do nordeste de maneira singular. Embora muito bonito, o cenário não promete nenhuma melhora aos personagens e cada cena limitada dentro da caçamba do caminhão, levanta a questão se o Boi Neon é aquele que aparece uma única vez na vaquejada, ou Iremar, que não leva uma vida tão diferente do animal.

O filme tem lá seus problemas, embora nada tão grave. Algumas cenas se estendem além do necessário, nada que influencie positivo ou negativamente a história, mas se torna cansativo. Algumas dessas cenas poderia ser mais trabalhadas, usando mais recursos filmicos, para que mesmo pesada, ficasse mais impactante.

Mas, como eu disse, isso não atrapalha a história de Gabriel Mascaro, que através de Boi Neon quebra arquétipos e, com bastante ousadia, nos apresente uma produção singular no mercado cinematográfico brasileiro.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Enclave (Enklava, 2015)



Vencedor do Festival Internacional de Cinema Avanca de 2016 (Portugal) e escolhido para representar a Sérvia no Oscar de Filme Estrangeiro, Enclave é escrito e dirigido pelo sérvio Goran Radovanovic. O filme explora a situação de um enclave (território com distinções políticas dentro dos limites de um outro território) Sérvio na Polônia. O diretor procura mostrar os resquícios de uma guerra política que atinge pessoas que não escolheram participar delas, tão pouco entendem seus motivos.

Com apenas 10 anos, Nenad precisa ir a escola em um carro blindado do exército. Esse é o resultado do Guerra do Kosovo, conflito entre as forças sérvias, iugoslavas e Exército de Libertação de Kosovo. Mesmo cinco anos após o fim do confronto, Nenad e sua família precisam lidar com os fragmentos que não foram esquecidos. Só que ele queria era um amigo para brincar, mas acaba entrando em uma aventura na linha inimiga para que seu avô consiga um enterro decente.

O apelo de Radovanovic é mostrar o estado das coisas através dos olhos de uma criança. Nesse caso, temos uma surpresa com a atuação de Filip Subaric (Nenad), embora jovem, ele consegue transmitir toda a aflição causada pelos problemas que sobraram da guerra. Outra brilhante atuação é a de Denis Muric, o possível antagonista Baskim. Seu olhar duro mostra a transformação que uma criança pode ter devido a tantos problemas. Muric pode ser uma grande promessa para o cinema, vale a pena acompanhar sua trajetória.

Outro ponto interessante do filme é a fotografia, do alemão Axel Schneppat. A câmera sempre a espreita, mostrando os personagens agindo de maneira contida, sempre com um cenário rico em beleza, mas pobre em outros aspectos. Embalando cada cena, segue uma trilha sonora notável, dando uma maior imersão ao filme.

No fim a produção fica um pouco confusa, com um jogo de cenas que misturam o presente e o passado, relatando uma amizade improvável. Talvez o final não alcance a expectativa, ainda assim toda a trajetória de Nenad nos mostra um pouco da situação de pessoas que vivem em uma certa marginalidade, o que nos faz pensar na situação de muitas pessoas, estejam elas na Sérvia, ou em qualquer outro lugar.