Cidade dos Piratas (2018)


Publicado  originalmente no site Esquina da Cultura.

A produção de A Cidade dos Piratas começou 20 anos atrás. Baseado nas tirinhas criadas por Laerte Coutinho em 1983, Otto Guerra, que já estava enrolado, ficou mais perdido quando Laerte desistiu do projeto, alegando que seu antigo trabalho era muito machista. O jeito foi entrar na história e narrar toda essa saga, dando elementos documentais a animação.

A narrativa conta várias histórias. A dos piratas, que querem contar suas aventuras, mas não sabem como fazê-lo. A de Laerte Coutinho e todo seu trajeto para se tornar uma mulher trans. E a do próprio diretor, que ao longo desses vinte anos teve que enfrentar funcionários abandonando o projeto, as adversidades da produção e um câncer. A animação reúne todas essas histórias, hora com graça, hora como crítica social. Porém, o que mais fica aparente é a loucura de Otto Guerra, que pode ser vista em outros trabalhos, mas nesse ficou totalmente explícita. Como foi dito por ele: “em 2013 eu pensei que iria morrer [devido ao câncer], então eu fiz essa loucura e agora estou aqui, passando vergonha.”

A Cidade dos Piratas brinca através de metáforas. Um Minotauro, que visto pelos olhos dos outros seria uma criatura monstruosa, é a mistificação dos desejos humanos. E o quanto do minotauro não existe dentro de cada um? E mesmo que não exista, qual o problema em existir nos outros? Essa é a ideia geral que a animação de Guerra tenta passar. Leva um tempo para entender, até mesmo Otto (em sua versão animada) pergunta que loucura é aquela que está acontecendo. Mas no fim, quando paramos para refletir sobre o que foi visto, e há muito o que refletir, vemos que somos todos um pouco minotauros e isso não nos faz uma pessoa má, só diferente.

O filme de Otto Guerra passou pelo Festival de Gramado, onde recebeu o troféu de menção honrosa, e chegou ao Festival de Vitória para sua segunda exibição. A Cidade dos Piratas é um filme polêmico que provoca uma série de emoções. Ainda sem data de lançamento nos cinemas, tudo o que podemos dizer é que quando chegar às telonas, vamos passar a ver muitos minotauros por aí.

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