quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Todo clichê do Amor (2018)


Quando assisti ao trailer de Todo Clichê do Amor, filme de Rafael Primot, pensei "mas que filme é esse?", certamente era um que eu não assistiria. Mas então o acaso colocou a produção no meu caminho e, logo nos primeiros minutos, percebi que o longa é muito mais do que seu trailer havia mostrado. A história escrita por Primot, que também atua, se desenrola de uma forma leve e pouco parece uma comédia, gênero no qual foi encaixado.

O filme narra três histórias, e já devo dizer que a forma como Primot junta elas é genial. Temos a prostituta (Majoire Estiano) casada com um ator pornô (João Baldasserini) e que decide ter um filho.  Um entregador (Rafael Primot) apaixonado por uma garçonete (Débora Falabella). Uma jovem grávida (Amanda Mirásci) e a madrasta "má" (Maria Luísa Mendonça). E um casal formado pelos atores Eucir de Souza e Clarissa Kiste, que precisam reencontrar o amor um pelo outro.

Todo o clichê fica de lado conforme a peculiaridade de cada personagem é apresentada. Usando a metalinguagem, o diretor mostra todas as limitações de cada um. Temos como características a cegueira, falta de tato, comunicação corporal e até uma doença rara. Mas o que todos os personagens trazem em comum é a carência. Mostrada de formas diferentes todos sentem esse mal e reagem a ele de sua maneira. A necessidade de todos é a mesma, ter alguém para compartilhar as veredas da vida.

Todo Clichê do Amor me surpreendeu. Esperava uma comédia escrachada, sem sentido. Mas o que vi foi um filme que usa piadas para dar ritmo, mas na maior parte do tempo explora um sentimentalismo desconcertante. Como diz a personagem de Majorie Estiano: "É quase brega, mas eu achei legal".

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Na Própria Pele - O Caso de Stefano Cucchi (Sulla Mia Pelle, 2018)


Embora tenha o entretenimento como base, o cinema nem sempre se resume a isso. Na Própria Pele - O Caso De Stafano Cucchi, do diretor Roman Alessio Cremonin, mostra isso. Acompanhando os últimos dias de Cucchi, o filme mostra a falta de preparo de policiais que, muitas vezes, usam o poder que lhes é fornecido, para reprimir o cidadão. E acredite, isso não acontece apenas no Brasil.

A narrativa se trata da história real de Stefano Cucchi. Aos 33 anos, depois de deixar uma clínica de reabilitação, ele tenta seguir em frente. Mesmo não tendo deixado as drogas totalmente, ele trabalha com seu pai e passa a maior parte do tempo com sua família. Certa noite decide passar um tempo com seu amigo, onde faz uso de drogas ilícitas. Quando abordado por policiais, a história começa a piorar, mas a situação chega ao ápice quando chegam dois investigadores. Depois disso, nada mais acontece como deveria.

Cremonin constrói quase um documentário. É certo dizer que nem tudo aconteceu conforme o que se mostra no filme, já que fica claro que nem os familiares conseguiram ver Stefano antes de sua morte. Mas a atuação de Alessandro Borghi é tão intensa que conseguimos captar a essência do que pode ter acontecido.  A câmera ajuda. Os enquadramentos e aproximações fazem parecer que ali havia um espião, flagrando cada injustiça sofrida por Cucchi. Mostrando que todo esse papo de "reabilitar o indivíduo a sociedade" não passa de hipocrisia, por parte do sistema policial.

Foi preciso certo cuidado por parte de Roman Alessio Cremonin, pois o fato ainda gera debates na Itália. Mas ele executa bem seu trabalho, sem exageros. Embora pareça faltar uma cena ou outra - como mostrar as agressões acontecendo -, acredito que o filme perderia muito sua credibilidade se isso fosse mostrado, seria só mais um. No fim, vemos mais uma vez o cinema ir além do entretenimento. Usando sua mágica para denunciar, não sendo apenas aquele "circo"  que os modernos "imperadores" nos oferecem.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Vazante (2017)


Vazante já iniciou sua carreira sendo um filme polêmico. Em sua estreia na 50º edição do Festival de Brasília de Cinema Brasileiro (2017), a diretora Daniela Thomas enfrentou um debate acalorado sobre a atuação de negros em seu filme. Fora isso, o filme foi adorado, como não poderia deixar de ser, e ganhou destaque em outros festivais.

Na cidade de Vazante, no interior de Minas Gerais, vivem donos de terras, gados e escravizados. O filme passa por diversas situações, que vai da vida injusta levada pelos negros vindos do continente africano, até a situação de brancos menos afortunados. Mas o foco é o casamento de um tropeiro português, com seus 50 anos, com uma jovem de 12 anos. História essa que a diretora afirma ter sido contatada por seu pai e que já está na família há tempos.

O trabalho da diretora Daniela Thomas é excelente. O filme em preto e branco nos ajuda a assimilar as situações à época. Vemos escravizados insatisfeitos, como era de se esperar, e sinhozinhos pouco confortáveis com essa situação. É preciso entender que no filme as coisas são narradas com ideias do que acontecia nos anos 1820. A forma como é contada, mérito da montagem, ameniza qualquer situação que poderia elevar a emoção, transformando tudo em algo comum, corriqueiro, como devia ser.

Tendo como pilar o casamento entre o tropeiro e a garota, Vazante conta muitas histórias ao fundo. A hierarquia permeia entre uma cena e outra. Não é só em relação a submissão de negros em relação aos brancos. Também há essa submissão de negros com negros e brancos com brancos, é tudo uma questão de poder. Em meio a tantas dores, a câmera é aproveitada em cada cenário. Com poucos diálogos, ela se mostra necessária ao captar a expressão de cada personagem.

Qualquer filme que exponha os mesmos temas que Vazante, vai ser polêmico. Mas é um filme aberto a qualquer interpretação, mas o que provavelmente será unanimidade é sua beleza artística. Entendo a necessidade de tratar de temas que por muito tempo foram deixados de lado (leia Jeferson De, Spike Lee e o novo Cinema Negro), mas é preciso entender que nem sempre teremos heróis revolucionários, que são capazes de mudar uma nação. Algumas vezes uma história só precisa ser contada como ela realmente foi e isso não a coloca em cima do muro, as críticas estão lá, é só procurar ver.

domingo, 23 de setembro de 2018

O Rosto (El Rostro, 2014)


Embora tenha feito sucesso em festivais na Argentina, onde foi adorado por maior parte da crítica e publico, El Rostro é um filme difícil de se achar. Mesmo sendo dirigido por Gustavo Fontán, o longa não ganhou destaque fora do país, talvez por ser uma produção independente, ou pelo fato de ser um filme tão singular.

Um homem atravessa o rio para o que parece ser um almoço em família. A fogueira e acesa para esquentar a água, o peixe é pescado e enquanto o almoço vai sendo preparado mais personagens, de diversas idades, vão surgindo. A narrativa não nos promete nada de muito empolgante, nenhum plot twist é anunciado, logo, nada incomum acontece.

A escolha de Fontán em usar 8mm e 16mm dá um ar documental ao longa e nos leva de volta aos anos 1930. Dando ritmo a monotonia de um dia comum, a trilha sonora é desconcertante. Hora escutamos as coisas antes mesmo delas acontecerem, hora temos um som que não condiz com o que está passando na tela.

É fácil perceber porque O Rosto foi tão bem aceito pela crítica argentina. Embora seja um filme lento e bem específico, sua monotonia é atraente. Vemos as paisagens através de uma fotografia que parece ser feita por um amador, algo presente no cinema independente de Gustavo Fontán. E quando aceitamos o fato de que o diretor sempre busca trabalhar novos ensaios e experimentações, El Rostro passa a ser uma grande obra.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Uma Viagem à Lua (Un Viaje a La Luna, 2017)


Embora receba o mesmo título, Uma Viagem à Lua não tem mais que algumas homenagens visuais ao curta-metragem de Méliès. O filme de Joaquín Cambre usa a viagem a lua como uma forma de representar o imaginário de um personagem muito peculiar.

Tomás (Angelo Mutti Spinetta) tem 13 anos, um trauma causado quando ainda era pequeno faz com que ele frequente um psicólogo e tome medicação. Se não bastasse, uma viagem em família que parece há muito programada faz com que ele seja sufocado por sua mãe, uma grande atuação de Leticia Brédice. A pressão vem de todos os lados, desde seu amigo de escola, que assim como ele, precisa passar em geografia. Até o surgimento de uma possível primeira namorada. O refúgio de Tomás está na astronomia. Seu desejo é viajar a lua e quando decide parar de tomar sua medicação, começa a construir seu "foguete espacial".

Embora não apresente nada de novo, ou diferente, Uma Viagem à Lua não se trata apenas de um filme adolescente. Com simplicidade Cambre consegue ir um pouco além. Além de Tomás temos toda sua família e vemos como ela lida com os problemas que a adolescência leva a ele. E a forma como o diretor, que ao lado de Laura Farhi também assina o roteiro, explora o imaginário do protagonista é um dos destaques do filme.

Não há muito o que dizer sobre Uma Viagem à Lua. De todos os filmes argentinos que já assiste, acredito que esse é um dos poucos que buscam explorar a experiência humana fora do cenário real e, mesmo sendo mediano,  vale a pena por sua fotografia - as cenas na piscina vazia são belas e contam mais do que os olhos veem - e a forma como Joaquín Cambre explora todos os elementos disponível, fazendo um filme que começa como uma dramática história adolescente e termina em um drama psicológico.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Como Nossos Pais (2017)


Precisei assistir Como Nossos Pais duas vezes antes de escrever qualquer coisa. Um dos motivos é que o filme tem tantas particularidades que muitas precisam ser revistas para que sejam analisadas com justiça. O filme de Laís Bodanzky conta uma história simples, mas com uma intensidade instigante.

Rosa (Maria Ribeiro) é uma mulher forte. Busca o perfeccionismo em seu trabalho, precisa lidar com as filhas pré adolescentes, que exigem sua atenção a todo momento, e o descaso do marido (Paulo Vilhena) em relação a isso, e cuidar da casa. Se não bastasse, vive em constante conflito com sua mãe (Clarisse Abujamra). Seu mundo desmorona quando descobre que o homem que a criou, e quem ela tanto admira, não é seu pai biológico. O forma como essa descoberta acontece é o que faz Rosa perder a calma e se entregar a um conflito emocial. Porém, ainda não acabou. Logo depois sua mãe revela que está doente e talvez não tenha muito tempo mais.

O grande destaque fica na conta de Maria Ribeiro, que atuação! Fazia tempo que não via nada dela, ainda tinha a sua personagem se Tropa de Elite na cabeça. Confesso que não esperava muito do filme em geral, mas Rosa chamou minha atenção do início ao fim. Clarisse Abujamra também merece destaque, mas essa já era de se esperar. Notamos sua empolgação nas discussões com a filha e a falsa calmaria que chega de uma  hora para a outra. Certamente não foi um papel dos mais fáceis.

Mas a brilhante atuação de Maria Ribeiro não salva alguns momentos do filme. O trabalho de Laís Bodanzky é ótimo, mas faltou atenção em cenas como a relação de Rosa com seu amante e seu trabalho. Esses casos poderiam enriquecer o filme ou serem descartados, o meio termo fez parecer que ela não sabia bem o que fazer com aquelas partes da história.

No fim, Como Nossos Pais é um grande filme. Devo dizer, mais uma vez, que a atuação de Maria Ribeiro faz valer cada minuto. O longa foi para Berlinale e ganhou prêmios fora e dentro do Brasil, e não por acaso, foi tudo merecido.

Takara - A Noite Em Que Nadei (Takara - La nuit où j’ai nagé, 2017)


Sabe aquela impressão que temos, que quando criança o caminho até a padaria é longo e uma grande aventura? Takara - A Noite Em Que Nadei traz essa impressão. Os 79 minutos parecem durar horas. Um filme sem diálogos e planos longos é uma manobra arriscada. Mas o trabalho dos diretores Kohei Igarashi e Damien Manivel é excelente e poderíamos ficar mais tempo contemplando cada cenário.

Takara é um jovem de seis anos que decide sair em uma aventura. Nada do que acontece é por acaso ou feito sem planejamento. O filme dividido em três partes nos indica o clímax de cada momento. No começo temos o objetivo, levar um desenho em algum lugar. Notamos que essa "missão" já havia sido planejada quando o garoto pega uma fruta escondida no meio da neve e começa sua jornada. Então vem o processo, um longo caminho até a cidade que parece tão grande para uma pequena criança. Mas não existe perigo, em nenhum momento precisamos nos preocupar com a segurança de Takara. Por fim, o retorno para casa.

Desapegados de muitos clichês que levariam o filme a mesmice, Igarashi e Manivel criam uma história despretensiosa e imprevisível. A forma como o filme é dividido em partes nos ajuda a entender o que está acontecendo sem estragar as surpresas. É difícil descobrir qual a motivação de Takara. Mas quando isso acontece lembramos de cada detalhe e ficamos maravilhados com tamanha a ousadia do garoto e o quão forte uma criança pode ser.

É interessante saber que todos os atores faziam parte de uma família, no filme e na vida real. Embora os outros integrantes sirvam mais como um background para a jornada de Takara, talvez essa proximidade tenha feito sua atuação ser tão leve e direta. A normalidade com que ele interpreta seu personagem faz parecer que aquele é só mais um dia de sua vida real. Como se não houvessem câmeras gravando seus passos.

Mais uma vez devo dizer que o trabalho de Igarashi e Manivel é formidável. Eles conseguem, de uma maneira minimalista, capturar a essência que o personagem emana. Isso sem precisar que ele diga qualquer coisa. A câmera baixa em momentos cruciais, nos mostrando o tamanho que a cidade é aos olhos de uma criança. Os planos longos que nos deixam mais imersos na narrativa. São muitos elementos que fazem de Takara - A Noite Em Que Nadei uma grande obra do cinema.

sábado, 15 de setembro de 2018

Benzinho (2018)


Histórias comuns estão cada vez mais tomando conta do cinema latino-americano. Só no Brasil tivemos filmes como 'Arábia', 'Como os Nossos Pais' e, um que gosto sempre de lembrar, 'Que Horas Ela Volta'. Tratar de temas que estão presentes no dia-a-dia virou um praxe desse cinema. Mas isso não é uma coisa ruim, Benzinho, de Gustavo Pizzi, é uma prova disso.

O filme mostra um momento na vida de Irene (atuação brilhante de Karine Teles) em que ela sente-se sobrecarregada, um daqueles momentos em que tudo parece dar errado e os problemas não param de chegar. O filho mais velho recebe uma proposta para jogar handball na Alemanha. O marido (Otávio Müller), dono de uma pequena livraria, decide empreender em outro ramo que provavelmente não vai dar certo. A irmã  (Adriana Esteves) vai morar em sua casa depois de apanhar do marido. Além disso tudo, a casa está caindo aos pedaços e sua única fonte de renda está em perigo. E agora, Irene?

Embora todos os personagens tenham seus problemas, não vemos uma vitimização. Os problemas precisam ser resolvidos e é isso que eles fazem, ou tentam. Uma das melhores cenas é quando Irene, no escuro, coloca seu headphone e se liberta ao som de Karina Buhr. Pode ser exagero, mas essa cena me lembrou Dançando no Escuro (2000), vendo que ali existem os sentimentos de perda, solidão e a falta/necessidade de dinheiro para a vida seguir em frente.

Benzinho é só elogios. A direção de Pizzi é formidável. O elenco, com destaque para Karine Teles, é sensacional. A fotografia é muito bonita, a cena em que estão na frente da casa, depois da janela quase ter ido ao chão, mostra um resumo de tudo, como se dissesse "está tudo desmoronando, mas sabemos que vai melhorar". O filme ja recebeu prêmios dentro e fora do Brasil e, ao que tudo indica, virão muitos mais.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Quase Memória (2018)


Esse filme tem me perseguido. Abri esse post no blogger ainda em abril, mas só agora tive uma cooncepção mais clara do que o diretor Ruy Guerra pretende mostra com sua produção. Quase Memória nos leva a uma viagem que permeia entre o real e o imaginário, onde um homem de meia idade entra em questionamento com uma versão mais nova de si, através das suas quase memórias.

Adaptado do livro homônimo de Carlos Heitor Cony, o filme mostra Carlos em duas época diferentes. A chegada de uma correspondência inesperado causa o encontro dos dois que, juntos no mesmo espaço-tempo, divagam sobre o pouco que lhes resta de sua memória. O que um lembra, pode não ser a mesma coisa que o outro, daí surgem conflitos, complementos e até mesmo deserções de suas lembranças.

O tempo que separa os dois é mostrado através de notícias. Enquanto o Carlos mais novo vive a repressão da ditadura militar, sua versão mais velha recebe a notícia da morte de Ayrton Senna. Mas quem ganha maior destaque é Ernesto (João Miguel), o pai. Responsável pelas cenas mais cômicas, ele toma maior parte do filme, tendo sempre suas aventuras contadas por outros personagens. 

Quase Memória é uma obra de Ruy Guerra. Embora fuja um pouco do livro, o diretor toma a liberdade de usar sua criatividade na construção da história, contando com um ótima atuação de Tony Ramos.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Meninas Aranha (Niñas Araña, 2017)


Baseado em fatos reais, Meninas Aranha conta uma história muito repercutida no Chile. Dirigido por Guillermo Helo, o filme mostra o caso de três jovens que, em 2005, escalavam prédios de luxo para praticar seus roubos.

O filme começa com Avi, Cindy e Estefany, ambas com 13 anos, furtando uma banca para conseguir uma revista juvenil. Em posse da revista, elas se deslumbram com a casas e roupas de famosos e almejam um dia viver assim. Então decidem visitar os bairros mais ricos da cidade, para ver como a classe alta vive. A vontade de ter todas aquelas coisas que veem nas vitrines do shopping e estarem ali, tudo tão fácil, as levam a cometer o segundo furto mostrado pelo filme. Quando damos conta, já estão entrando em apartamentos.

Meninas Aranha funciona mais como um fácil documentário, embora simplista demais. Existe uma crítica social, a situação das garotas, o bairro onde moram (a "comunidade modelo", em Peñalolén) e seus problemas pessoais as levam a cometer esses delitos. Mas acredito que tenha faltado um aprofundamento na questão. Tudo isso foi mostrado de maneira muito superficial, como se não fosse o ponto chave do filme.

Por fim, Meninas Aranha não recebeu a atenção que uma história como essa merecia. O filme não chegou nem a participar de festivais no próprio país e pouco ouviu-se sobre ele em 2017. Embora tenha ganhado minha atenção, não tenho certeza se é um filme que vale o tempo dedicado a ele. A ideia é boa, mas a produção é muito fraca.

domingo, 9 de setembro de 2018

Diante dos Meus Olhos (2018)


Publicado originalmente no site Esquina da Cultura.

Contar uma história através de documentário não é um trabalho fácil. O uso de arquivos é algo primordial para que a narrativa faça sentido. Mas quando o material é escasso, o que define a qualidade do trabalho é a criatividade do diretor. Em Diante dos Meus Olhos a criatividade de André Félix foi precisa e fechou com chave de ouro o último dia do Festival de Cinema de Vitória.

O filme acompanha Afonso Abreu, Mario Ruy e Marco Antônio Grijó, membros da banda Os Mamíferos, que atuaram no cenário musical capixaba entre 1966 e 1970. Nesse tempo não lançaram nenhum álbum e pouco material foi registrado. Mas é um nome importante para quem busca entender a contracultura dos anos 1960. É isso que André Félix nos mostra, acompanhando o dia-a-dia dos ex-integrantes da banda, que resgatam seus dias de glória.

O grupo Os Mamíferos começou o movimento da contracultura em 1966 e atingiu o ápice em 1968. A banda levava ao palco um estilo psicodélico, diferente do que vinha acontecendo no Brasil. Essa foi umas das bandas que, mesmo fora do trecho Rio-São Paulo, ganhou destaca na década de 1960. Depois de cerca de 50 anos, os relatos daqueles que integraram a banda mostra porque mesmo diante de tudo o que fizeram, são pouco conhecidos hoje em dia.

Um dos fatos que causam essa invisibilidade é a escassez de material. Não ter gravado nenhum álbum torna difícil o acesso as músicas da banda. Foi pensando nisso que André Félix decidiu produzir o documentário. “Me interessei pela investigação do que fez a banda não se tornar um clássico da música brasileira. A partir de então, fui entendendo como a vida dessas pessoas foi se desenrolando, e como a vida na cidade de Vitoria foi se desenrolando. Isso contribuiu para que história não chegasse para a nossa geração”, disse André ao Festival.

Diante dos Teus Olhos mostra uma fase importante para a música brasileira dos anos 60, ainda mais a sua importância para Vitória. O resgate feito por André Félix se mostra importante para que mais pessoas possam entender sobre o desenvolvimento da cultura regional, seus passos e percalços. O filme deve chegar aos cinemas em 2019 e quando isso acontecer a criatividade de André Félix deve ser levada em conta a cada exibição.

sábado, 8 de setembro de 2018

Cidade dos Piratas (2018)


Publicado  originalmente no site Esquina da Cultura.

A produção de A Cidade dos Piratas começou 20 anos atrás. Baseado nas tirinhas criadas por Laerte Coutinho em 1983, Otto Guerra, que já estava enrolado, ficou mais perdido quando Laerte desistiu do projeto, alegando que seu antigo trabalho era muito machista. O jeito foi entrar na história e narrar toda essa saga, dando elementos documentais a animação.

A narrativa conta várias histórias. A dos piratas, que querem contar suas aventuras, mas não sabem como fazê-lo. A de Laerte Coutinho e todo seu trajeto para se tornar uma mulher trans. E a do próprio diretor, que ao longo desses vinte anos teve que enfrentar funcionários abandonando o projeto, as adversidades da produção e um câncer. A animação reúne todas essas histórias, hora com graça, hora como crítica social. Porém, o que mais fica aparente é a loucura de Otto Guerra, que pode ser vista em outros trabalhos, mas nesse ficou totalmente explícita. Como foi dito por ele: “em 2013 eu pensei que iria morrer [devido ao câncer], então eu fiz essa loucura e agora estou aqui, passando vergonha.”

A Cidade dos Piratas brinca através de metáforas. Um Minotauro, que visto pelos olhos dos outros seria uma criatura monstruosa, é a mistificação dos desejos humanos. E o quanto do minotauro não existe dentro de cada um? E mesmo que não exista, qual o problema em existir nos outros? Essa é a ideia geral que a animação de Guerra tenta passar. Leva um tempo para entender, até mesmo Otto (em sua versão animada) pergunta que loucura é aquela que está acontecendo. Mas no fim, quando paramos para refletir sobre o que foi visto, e há muito o que refletir, vemos que somos todos um pouco minotauros e isso não nos faz uma pessoa má, só diferente.

O filme de Otto Guerra passou pelo Festival de Gramado, onde recebeu o troféu de menção honrosa, e chegou ao Festival de Vitória para sua segunda exibição. A Cidade dos Piratas é um filme polêmico que provoca uma série de emoções. Ainda sem data de lançamento nos cinemas, tudo o que podemos dizer é que quando chegar às telonas, vamos passar a ver muitos minotauros por aí.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A Chave do Vale Encantado (2018)


Publicado originalmente no site Esquina da Cultura.

Esse filme é uma desconstrução. Mas uma desconstrução poética dirigida e escrita por Oswaldo Montenegro. Reunindo uma série de personagens do imaginário infantil, A Chave do Vale Encantado ganhou a tela na quarta noite do Festival de Cinema de Vitória, e mais que isso, emocionou crianças e adultos com uma narrativa leve, musical e muito bonita.

O Vale Encantado é um lugar onde personagens como Chapeuzinho Vermelho, Príncipe Encantado e Papai Noel vivem em harmonia. Quando uma criança no mundo real sonha, eles entram em ação, encenando suas histórias. Mas quando eles estão dormindo, quem está no sonho deles? Isso é indagado pelo próprio Montenegro. A questão leva alguns personagens a furtarem a chave do Vale, que está em posse do Papai Noel. Com a chave, eles cruzam a fronteira do imaginário e se deparam com a decepcionante realidade.

Inspirado no livro Vale Encantado, escrito por Oswaldo Montenegro em 1994, esse é o quarto filme do diretor. A ideia inicial é fazer releituras das histórias infantis de forma divertida. Além disso, notamos que no mundo criado por Montenegro, mesmo que haja a existência do bem e do mal, eles convivem em harmonia, pois ninguém é totalmente bom, tão pouco totalmente mal. Além de tudo o filme comove, talvez mais adultos que crianças. Existe ali, através de músicas criadas para o filme e questões levantadas pelos próprios personagens, um panorama da felicidade e a procura de seu real significado, onde buscamos saber o quanto estamos próximos dela.

Embora despretensioso, A Chave do Vale Encantado nos faz pensar. O filme de Oswaldo Montenegro possui tudo o que é necessário para reunir a família na frente da tela. Diverte as crianças e faz os adultos voltarem aos velhos tempos. Mas além da diversão também vejo ensinamentos, até lições, que motivam o afeto, alegria e esperança.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Neville de Almeida: Cronista da Beleza e do Caos (2018)


Publicado originalmente no site Esquina da Cultura.

“O cinema é liberdade”. É com essas palavras que Neville D’Almeida, um dos grandes diretores do cinema brasileiro, recebe o Troféu Vitória na terceira noite do Festival. Para celebrar os 50 anos de cinema, Mario Abbade monta o documentário Neville D'Almeida: Cronista da Beleza e do Caos. Imagens raras e entrevistas com atores consagrados narram a trajetória desse sujeito tão polêmico no cinema brasileiro.

Neville D’Almeida é o diretor mais censurado de todos. Ele mesmo faz questão de deixar isso claro. Houve muitas brigas no meio audiovisual nos anos 1970, isso porque a censura marcava em cima. Muitos filmes não chegavam nem a ser exibidos. Os que conseguiam estavam cheios de cortes. Neville enfrentou isso durante toda sua carreira, já que levava  pornochanchada a níveis que a dita “família brasileira” não poderia suportar. Recebeu o título de “Maldito”, e seus filmes foram catalogados como algo que não o agrada: cinema marginal.

O documentário de Mario Abbade mostra esse processo, como o próprio título diz, Da Beleza e do Caos. Pode parecer que juntar entrevistas – uma fala aqui, outra ali, algumas cenas de filmes – é um trabalho fácil de se fazer. Mas notamos que Mario Abbade não buscou essa simplicidade. Algumas entrevistas com Neville são raras, mesmo os que acompanham o cinema brasileiro podem não ter visto muitas delas. Cenas de gravação e em lugares diversos que talvez nunca tenham sido exibidas na TV. Filmes censurados, hoje mostrados com naturalidade, sem censura, por meio do documentário. O trabalho de Abbade é ótimo e importante. Ver essa figura que mostrou ser possível trabalhar com o que quer e, mesmo diante de dificuldades, produzir algo que mude a visão de tudo o que temos sobre o cinema chamado por muitos de marginal, é algo necessário para os novos realizadores que estão procurando seu espaço.

Neville de Almeida: Cronista da Beleza e do Caos vai arrancar risadas, até gargalhadas, de muitos espectadores. Enquanto outros ficarão incrédulos tamanha sua ousadia. O que antes era necessário para uma boa pornochanchada, hoje pode ser visto como assédio, mas sem dúvida Neville mostrou em seus filmes o que era o Brasil. Mostrou o que outros não ousavam mostrar. Por isso foi censurado, tachado e catalogado. Mas o fato é que Neville D’Almeida dirigiu 14 filmes, atuou em uma dezena, e ainda está na ativa, criando, produzindo a mercê de sua liberdade. Porque, mais uma vez, “cinema é liberdade”.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A Mata Negra (2018)


Publicado originalmente no site Esquina da Cultura.

A sala estava lotada quando A Mata Negra começou a ser exibido. Com todas as cadeiras ocupadas e algumas pessoas nos corredores. Logo no primeiro momento, uma espécie de introdução do que estava por vir, o filme do diretor capixaba Rodrigo Aragão arranca aplausos dos espectadores.

O longa conta a jornada de Clara (Carol Aragão, filha de Rodrigo), uma jovem que caminha da inocência para a violência por meio da magia negra. Quando criança, ela fora encontrada na floresta por Pai Pedro (Markus Konká), que acabou criando a menina. Em determinado dia, quando Pai Pedro sente-se fraco para ir à feira, ela vai em seu lugar. A partir disso, ela começa um romance com um dos feirantes. Esse romance interrompido por um suposto roubo, que motiva Clara a apelar para a magia negra presente no livro, mudando a vida dela, de seu amado e de todos os outros que estão ao redor.

A Mata Negra é o quinto longa de Rodrigo Aragão. É possível encontrar relações entre seus filmes. Suas inspirações vêm de obras como Senhor dos Anéis, assim podemos montar um mapa da região onde suas produções se passam e fazer algumas interações entre eles. Em um debate com a produtora Mayra Alarcón – esposa de Rodrigo e que também atuou no longa – ela revelou que “esse filme estava na cabeça há muito tempo e ele foi se surgindo a partir das outras produções”. Outra relação entre os filmes é o Livro Perdido de Cipriano, que aparece nos dois longas anteriores, Mar Negro e As Fábulas Negras.

A qualidade de A Mata Negra é inegável. Algumas vezes buscando referências em filmes mais trashes do gênero, deixando de lado os clichês criados pela indústria e trazendo algo novo e diferente para o cinema nacional. Os efeitos especiais também chamam a atenção do espectador. Segundo Alarcón, “o terror surge como uma forma de viajar para um universo fora da nossa realidade”, mas como fazer isso no Brasil, onde o gênero não é bem explorado? “O Rodrigo sempre gostou de efeitos especiais e para fazer o que gostava ele precisou começar a fazer os próprios filmes”, conclui Mayra Alarcón.

A Mata Negra se desenvolve através desse folclore criado por Rodrigo Aragão e, embora o caminho leve a protagonista aos horrores da magia negra, podemos ver um certo otimismo em seu papel. O objetivo que muda de tempos em tempos, quando tenta salvar a vida de algum personagem que aparece em seu caminho, ou reviver seu amado. Mas o desfecho mostra que as coisas no universo Negro criado pelo diretor pode ser mais complexo do que imaginamos e essa ideia já está em fase de criação, como afirmou Mayra Alarcón, e se chamará Terra Negra, dando fim a saga do Livro Perdido de Cipriano.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Pastor Claúdio (2018)


Publicado originalmente no site Esquina da Cultura.

Abrindo a Mostra Competitiva de Longas-Metragens, Pastor Cláudio relata, por meio de entrevista, a história do ex-chefe de Polícia Civil, agora pastor, Cláudio Guerra. Psicólogo e ativista dos Direitos Humanos, Eduardo Passos levanta questões sobre o papel de Guerra durante a ditadura militar, precisamente entre os anos 1964 e 1967. O documentário, dirigido e roteirizado por Beth Formaggini, causa um certo desconforto mediante a tudo o que é relatado. Talvez não pelo que é falado, mas pela naturalidade como isso é feito.

Com grande experiência na área documental, Beth Formaggini explora essa naturalidade para expor o horror que foi a ditadura militar no Brasil. Responsável por mortes, “desaparecimentos” e ocultação de corpos, o agora Pastor Cláudio relata suas funções na época, dizendo que não tem problemas em descrever o que fez enquanto outra pessoa. Tudo é relatado com detalhes, com espaço até para a simulação de um dos assassinatos que, segundo Cláudio, foi um ato de misericórdia, livrando Nestor Veras das dores que sentia após tortura.

Embora tudo o que Guerra fez tenha sido mediante a ordens de seu superior, existia uma certa vaidade em torno disso. Durante a entrevista, Cláudio alega que gostava do poder que sua posição lhe garantia, mostrando essa como uma de suas principais motivações. Além disso recebia de “amigos” e associações privadas, valores em dinheiro e bens materiais.

Homenagens e shows. A primeira noite do Festival de Cinema de Vitória também homenageou o realizador capixaba Cláudio Tovar. Chegando a quase 30 anos de carreira, com trabalhos que permeiam cinema, teatro e TV, Tovar recebeu o Troféu Vitória por sua contribuição ao meio audiovisual da cidade e do Brasil. Logo após a homenagem, foram exibidos cinco curtas que integram a 7ª Mostra Foco Capixaba. O curtadoc Rio das Lágrimas Secas, de Saskia Sá, chama nossa atenção para as perdas sofridas por mulheres que estão no caminho da destruição provocada pelo rompimento da barragem de rejeitos de mineração da Samarco.

Fechando a noite do Festival de Cinema de Vitória, Chico Chico e João Mantuano levaram mais animação ao Lounge do evento. Em uma apresentação que reuniu músicas dos dois artistas e alguns covers nacionais e internacionais.

Arábia (2017)


Esse filme é uma desconstrução. Com roteiro e direção de João Dumans e Affonso Uchôa, Arábia desconstrói seu personagem principal para nos mostrar uma realidade comum, embora triste, muito bonita de se ver.

O filme conta a história de Cristiano (Aristides de Sousa, que ja havia trabalhado com Uchôa em 'A Vizinhança do Tigre'). O primeiro choque com a realidade vem quando vemos que a escolha errada do personagem acontece não por opção, mas por falta dela. Então Cristiano se torna aquele ser comum, substituível. Com a ficha suja, tudo o que ele sabe é que ser preso novamente não é uma opção. Então trabalha e é explorado em diversos lugares do interior de Minas Gerais.

A jornada é narrada por Cristiano por meio de um caderno no qual estava escrevendo sua história. Entre erros e acertos ele segue sua jornada do herói, mostrando o quanto pode ser difícil em um país onde o trabalhador é normalmente explorado, buscar uma vida melhor. Os cenários de uma Minas interiorana são facilmente comparados com as regiões sertanejas do nordeste brasileiro, mostrando que essa busca por algo melhor e a exploração enfrentada pelos trabalhadores não é algo regional, mas sim uma coisa impregnada no país.

É interessante ver o momento em que Cristiano se indaga sobre sua função social, levantando a questão de quem é o trabalhador e seu papel na sociedade. Se um dia, quando não puder mais exercer seu trabalho, vai ser reconhecido ou esquecido.

Dumans e Uchôa vão além de um filme convencional e apresentam uma história bem amarrada, que pode ser encontrada em muitos cantos do Brasil.