quinta-feira, 22 de novembro de 2018

O Nó do Diabo (2018)


Estou vendo duas coisas no horizonte cinematográfico. Uma delas é o terror ganhando cada vez mais espaço no cinema nacional, outra, é o cinema nordestino ganhando novo fôlego com suas novas produções. Uma delas é O  Nó do Diabo, filme que reúne cinco contos, tendo como tema a escravidão, dirigidos por Ramon Porto Mota, Jhésus Tribuzi, Ian Abé e Gabriel Martins. O filme é forte e crítica, mesmo através do terror, as raízes escravagistas que persistem no Brasil.

O primeiro conto se passa em 2018, uma fazenda vigiada por um policial frustrado, mandado por um velho escravocrata (interpretado por Fernando Teixeira). O tempo vai regredindo e novos contos ganham a tela, sempre com a escravidão como foco, sempre com o personagem de Fernando Teixeira como o famigerado "sinhozinho".

Esse retrocesso que acontece de conto em conto mostra como o Brasil mudou, se mudou, bem pouco. Hoje a maior parte do que denominamos "elite" descendem desses senhores de engenho, que empregaram seu falso poder naqueles que não podiam questionar. Para mostrar isso, as cenas de O Nó do Diabo são fortes, embora acredite que não chega tão perto do que acontecia na época, acho que isso não seria possível.

Mas voltando ao filme, a união desses quatro diretores resultou em uma excelente obra, um filme muito bem produzido. A história chama atenção para um tema que ainda hoje recorre aos meios para se tornar visível. E esse é o papel do bom cinema: entreter, mas também criticar e provocar mudanças.

O Grande Circo Místico (2018)


Gosto do Cacá Diegues, muito disso devido ao Cinema Novo. Mas fora do movimento, sempre me chamou a atenção a forma como ele trabalhava o lúdico em seus filmes. Agora voltando a direção, ele utiliza esse artifício como nunca havia feito. O Grande Circo Místico é provocador, mas possui uma beleza, que mesmo estranha, agrada.

Um circo centenário. O Grande Circo Místico surge a partir de uma história de amor e vai sendo passado de geração em geração. Toda a história é acompanhada pelo apresentador Celavie (Jesuíta Barbosa), que sonha em ser ator. Enquanto a vida de cada herdeiro vai se desenrolando, o circo resiste a passagem do tempo, sempre apresentando características de cada época.

Em O Grande Circo Místico, Cacá Diegues usa de todos seus artifícios para montar uma boa trama, o filme possui uma estética bonita e montagem característica do diretor. Mas peca no rodízio de personagens, que entram e saem muito rápido de cena, seria o caso de diminuir uma geração e dar mais tempo para as outras? Isso nunca vamos saber. Mas quem está sempre presente é Jesuíta Barbosa, em grande atuação. Um personagem realmente místico, com seus mais de 100 anos e nenhuma marca do tempo.

O filme está representando o Brasil na seleção para o Oscar de Filme Estrangeiro. Essa é a sétima vez que Cacá passa pela seleção, a primeira foi em 1977, com Xica da Silva (o prêmio acabou ficando com Jean-Jacques Annaud com 'Preto e Branco em Cores). Embora a concorrência seja pesada, as chances são boas, já que agora Cacá aposta em um tema que pode não ser novo no meio, mas é uma das melhores produções de ficção sobre a arte circense.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Café com Canela (2017)


Muitas vezes fazer algo simples pode ser mais difícil do que algo muito elaborado. No cinema, como fazer um filme simples ser bom? É um grande desafio. Mas Ary Rosa e Glenda Nicácio alcançam essa meta em seu longa de estréia, Café com Canela. O filme nos leva ao Recôncavo da Bahia para nos contar a história de uma mulher que, após perde o filho, se afasta do marido, amigos e carreira. 

Margarida, interpretada brilhantemente por Valdinéia Soriano, é esta mulher. Em flashbacks vemos um pouco da sua relação com seu filho a ponto de sentirmos a dor da sua perda. Sua auto-exclusão social promove um terror psicológico que começa a atrapalhá-la em suas ações. Em contra partida, temos Violeta, também em ótima atuação de Aline Brune, ex-aluna de Margarida, que ao encontrá-la por puro acaso, decide que sua missão é tirar sua antiga professora do exílio.

Acredito que o experimentalismo seja uma das características de Café com Canela. Hora pelo enquadramento das cenas, outrora pela montagem. Vemos que os dois diretores ousam criar algo diferente, que pode ser certeiro, mas tem lá seus riscos. O filme é solto, entre uma cena e outra vemos transições com paisagens que, embora bonitas, as vezes parecem desconexas. Mas ainda assim dá certo. É bonito ver o recôncavo baiano a partir da visão dos diretores. E todo o risco corrido vale a pena, já que foi trabalhado em cima de uma história bem amarrada que trafega entre a dor e a perda enfrentada por cada personagem a sua maneira.

Em sua totalidade, Café com Canela é um cinema feito por quem gosta de cinema. O diálogo das duas protagonistas sobre o assunto define bem isso. E ainda mais, mostra que através de filmes assim, simples e arriscados, podemos nos sentir mais próximos de cada história, e esperamos que essa dupla, Ary Rosa e Glenda Nicácio, nos tragam ainda mais.

O Insulto (Qadiyya raqm 23, 2017)



Filme libanês indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, O Insulto é roteirizado e dirigido por Ziad Doueiri. O filme traz à tona um debate político e social, que causa polêmica, mas não assume posições e, com isso, temos uma produção totalmente consciente e diferente do que normalmente nos é apresentado.

Tony é um mecânico libanês que costuma regar as plantas em sua varanda. Um dia, enquanto rega suas plantas, acaba molhando o palestino Yasser, que está trabalhando na regularização hidráulica em seu bairro. Devida a tensão da nacionalidade dos dois personagens, o acontecimento acaba tomando outras proporções que começa a ser resolvida no tribunal e, com o passar do tempo, atinge toda a cidade chegando perto de uma nova guerra civil.

A maior diferença de O Insulto é o fato dele não ser partidário. Em momento algum Doueiri apoia um ou outro personagem. Em dado momento, desejamos que a justiça seja a favor de Yasser, noutro, apoiamos Tony. Esse jogo do qual mudamos de lado com frequência transforma a história do filme em algo original, incomum, que nos traz pensamento mais amplos sobre a situação dessa briga entre nacionalidades diferentes.

Mas a qualidade dessa história vai além do roteiro e direção de Ziad Doueiri. As atuações de Adel Karam (Tony) e Kamel El Basha (Yasser) são excepcionais. Com o decorrer da história vamos percebendo que os dois personagens têm muito em comum. Com o tempo eles percebem a grandeza de sua disputa, que deixa os tribunais e tomam as ruas do Líbano, desencadeando conflitos e colocando suas seguranças em risco. Tudo isso acontece com atuações repletas de expressões, que muitas vezes descartam qualquer diálogo. Karam fala mais, enquanto Dasha apela para o gestual, mas ambos com precisão que transforma O Insulto em uma excelente obra.

Esse era um dos filmes indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro que me faltava assistir (o outro é Sem Amor (Loveless, de Andrey Zvyagintsev). Cada um que assisto -- ou reassisto -- fica mais difícil pensar qual deles merecia o prêmio. Certamente O Insulto mereceu ser indicado, não que o Oscar seja parâmetro para decidir se um filme é bom ou não, mas sem dúvidas é uma maneira de mostra que ele tem algo de especial. Nesse caso são muitas estrelas, duas delas se chamam Adel Karam e Kamel El Basha, que para mim transformam a produção em um trabalho ainda mais especial.

Man In The Chair (2007)


É sempre mais prazeroso ver o cinema falando sobre si. Nesses casos vivemos mais que a história da sétima arte, vivemos a visão intimista que um diretor ou roteirista tem de seu trabalho e evolução no mesmo. Man in The Chair é isso, uma crônica que o diretor e roteirista Michael Schroeder consegue transpor através de uma produção que crítica e emociona.

Flash Madden (Christopher Plummer) é um diretor hollywoodiano esquecido pelo tempo, seu dia a dia se resume em ingerir bebidas alcoólicas e apontar o cinema atual como medíocre. Quando Cameron (Michael Angarano) aparece em busca de um diretor para ajudá-lo a ganhar um concurso da escola, Flash precisa rever seus conceitos e reencontrar o que outrora foi seu maior prazer.

Embora seja uma excelente produção, com atuações a altura, Man in The Chair foi pouco comentado em 2007, uma tremenda injustiça. A história vai além da situação de Flash (grande atuação de Plummer) e faz uma crítica social sobre a situação e casas de repouso para idosos nos EUA. A cena que mais me marcou foi algo relativo a isso, quando um amigo de Flash (outra boa atuação de Emmet Walsh) precisa escrever um roteiro para Cameron e usa um computador para fazê-lo. Essa nova descoberta começa com uma explosão de sentimentos e segue um caminho de terror quando o personagem vê toda a destruição física e psicológica que o ser humano é capaz de causar.

A crítica feita por Michael Schroeder é válida para muitos lugares, incluindo o Brasil. O descaso com idosos é algo recorrente e ele busca, através do seu filme, chamar a atenção para essa questão. Man in The Chair emociona, com uma história bem amarrada e significativa, a produção de Schroeder mostra que deveria chegar muito além do pouco espaço que teve.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Valsa Para Bruno Stein (2016)


Baseado no livro homônimo de Charles Kiefer e com direção de Paulo Nascimento, Valsa Para Bruno Stein reúne a história de diversos personagens, todas elas ligadas a Bruno Stein, com uma grande interpretação de Walmor Chagas.

Bruno Stein vive em sua fazenda com a família. Lá funciona uma fábrica de bloco que são produzidos de maneira artesanal. A chegada de um novo empregado desperta sentimentos conflituosos em Bruno, que ainda precisa lidar com o fim da vida. 

Muitas histórias são contadas em Valsa Para Bruno Stein. Os empregados da fábrica de bloco têm seu passado apresentado. Os membros da família Stein também. E toda elas possuem importância necessária para o filme. A jovem interpretada por Fernanda Moro fomenta discussões geracionais com seu avô, enquanto sua mãe possui uma história mais tensa com ele, que vai se desenrolando aos poucos.

Mas organizar todas essas histórias em tão pouco tempo não é uma tarefa fácil. Com excessão de Walmor Chagas, que atua de maneira esplêndida, falto um pouco de presença dos atores. O que vemos são personagens desprendidos de suas histórias, mesmo assim a união de todas elas ainda consegue emocionar.

Paulo Nascimento consegue de um maneira simples entregar ao publico um excelente produção. Fazendo a utilização da serra gaúcha como cenário, temos bons planos que andam em paralelo com os sentimentos dos personagens.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Roma, Cidade Aberta (Roma, Cittá Apperta, 1945)


I Mostra Cinema e Liberdade - Sempre que falamos sobre um cinema usado como crítica social lembramos do neorrealismo italiano. Dois nomes são extremamente importante para essa época, Roma, Cidade Aberta e Roberto Rossellini, seu diretor. Sendo um dos precursores, Rossellini iniciou o movimento com esse filme, que conta uma história sem muitos artifícios, só uma narrativa direta e precisa.

A história começa com o domínio nazista na Itália, após a queda de Mussolini, que vivem a ansiedade da chegada dos aliados, para um novo combate. Um dos líderes da resistência, Giorgio (Marcello Pagliero), é indentificado, ele precisa se esconder para planejar a sua fuga. Então se esconde na casa de um companheiro, Francesco (Francesco Grandjacquet), e são ajudados pelo padre Don Pietro (Aldo Fabrizio), mas quando o cerco alemão vai fechando, todos acabam sendo presos pelo exército nazista.

O mais interessante de Roma, Cidade Aberta não é apenas sua histórias que levanta questões políticas e sociais da época, mas todo seu processo de filmagem. Filmado clandestinamente e com um orçamento escasso, o impacto causado por Rossellini foi grande, devido a opressão nazista vivida pela Itália durante a Segunda Guerra. Fazer cinema naquele tempo era um processo muito difícil, então era necessário aproveitar as oportunidades e isso Rossellini fez bem, tanto no filme em questão, quanto nas sua outras produções, que iam além do entretenimento, atuava também como uma denuncia dos abusos alemães.

Roma, Cidade Aberta é um retrato de um sistema ditatorial repressivo. Rossellini soube usar sua arte para mostrar ao mundo o que muitas vezes é camuflado pela mídia, fazendo de seu filme, merecidamente, uma das melhores produções dos anos 1940.

sábado, 10 de novembro de 2018

Memórias do Cárcere (1984)


I Mostra Cinema e Liberdade - Dando início a primeira edição da Mostra Cinema e Liberdade, depois de uma palestra sobre ditadura com Luiz Felipe Pondé, Memórias do Cárcere -- filme adaptado do livro homônimo de Graciliano Ramos --, dirigido pelo ícone Nelson Pereira dos Santos, ganhou a tela do Cinearte Petrobrás. Narrando a vida carcerária de Graciliano, Memórias é visto como uma das melhores adaptações literárias já feitas no Brasil e, quanto seu significado para a Mostra, faz uma relação do passado e do presente em um retrato social do país.

Nos últimos anos de ditadura militar no Brasil, o escritor Graciliano Ramos foi preso sem ao menos ser acusado. Durante os dez meses de detenção, Graciliano passa por situações inusitadas, todas descritas em sua autobiografia. Como escritor, seu papel na prisão nunca foi de liderança, agia por si e chegou a ser acusado de racista (ou "fachista", como é dito no filme), quando em sua agonia negociou uma cama, que segundo outro "companheiro", deveria ser cedida para alguém mais necessitado. Durante todo esse tempo deu um jeito de registrar seu dia a dia e escrever o romance Angústia, publicado por intermédio de amigos.

Em 1984, Memórias do Cárcere foi ovacionado no Festival de Cannes, onde recebeu o Prêmio Fipresci (Fédération Internationale de la Presse Cinématographique). Nelson tinha visão, mas também contou com uma excelente atuação de Carlos Vereza, que soube transpor a luta cotidiana de Graciliano em frente as câmeras. Em um filme com mais de três horas, seria fácil perder o interesse e assistir em partes, mas a história, bem adaptada (alguns dizem que nem sequer houve um roteiro, só o livro), é tão inusitada que a todo momento esperamos algo novo e sempre o recebemos. Em uma época em que o Brasil vivia a Diretas Já, o filme chamou atenção para o sistema ditatorial que o país viveu anos atrás, algo que quase meia década depois ainda vinha sendo enfrentado. Ainda podemos dizer, e destacar a importância da Mostra Cinema e Liberdade, que podemos enfrentar tais problemas em um futuro próximo.

Memórias do Cárcere foi uma ótima escolha para abrir uma Mostra tão precisa diante da situação que nos encontramos. 7 títulos serão exibidos, sendo eles 'Memórias do Cárcere' (1984), 'O Ovo da Serpente' (1977),  'Roma, Cidade Aberta' (1944), 'Afterimage' (2016), 'Farenheit' (1966), 'Alphaville' (1965) e 'Laranja Mecânica' (1971), grandes clássicos do cinema mundial, que ainda contarão com paineis destacando o tema de cada um deles. Certamente uma excelente opção para o final de semana.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

A Pedra Sem Sorriso (Agelastos Petra, 2000)


III Mostra de Cinema Grego - Toda a cultura grega é envolvida por uma mitologia secular. A Pedra Sem Sorriso, do diretor Filippos Koutsaftis, explora o mito que está sob a cidade de Eleusina. Através desse documentário vemos imagens que foram gravadas durante dez anos, registrando uma série de escavações entre os anos 1980 e 1990. Como todo documentário, o objetivo é mais informação que entretenimento, mas o valor atingido pelo diretor faz com que a produção seja uma ótima opção para quem se interessa por história grega e até mesmo mundial.

Desde os tempos antigos, Eleusina é ligada ao mito de Deméter, deusa da Terra, agricultura e fertilidade, e de sua filha Perséfone, que simboliza a natureza e o ciclo eterno da vida. Com isso, eram feitas cerimônias anuais sobre a vida, a morte e a vida após a morte, em rituais poucos privilegiados podiam participar. O documentário desconstrói boa parte desses rituais, levando a tona a crença do povo eleusiano. Embora não siga uma ordem cronológica precisa, a história é contada do momento em que essas cerimônias aconteciam até quando toda a cultura foi esquecida, dando lugar a uma cidade cinza, industrial.

Durante os dez anos que foi gravado, as câmeras capturaram mais que as explorações de sítios arqueológicos. As cenas mostram a destruição desses lugares e acontecimentos, políticos e sociais, que levaram a cidade de Eleusina a ser o que é hoje, como já disse, uma cidade industrial. Mas também temos presentes pessoas que nasceram e vivem no lugar, que lembram das histórias que ultrapassaram gerações. Daí surge uma espécie de protagonista, um homem sem teto que procura, em lixões e aterros, as antiguidades que representam toda essa mitologia. 

Os personagens que ainda buscam resgatar essa história ganham voz através de Koutsaftis. Suas palavras complementam as imagens mostradas durante toda a produção, ainda nos conta a história em que Deméter lamenta a perda de sua filha, dando origem ao nome Agelastos Petra, que acaba virando o título do filme. A Pedra Sem Sorriso é um documentário grego gravado a mais de três décadas, pode não ser uma boa opção para quem procura só entretenimento, mas se levar em consideração seu valor histórico, é um ótimo filme.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Gun City (La Sombra de la Ley, 2018)


Em um cenário muito bem ambientado, Gun City, do diretor Dani de la Torre, nos apresenta uma Espanha dos anos 1920 em um romance policial que relembra os clássicos lançados na década de 80. Embora cometa alguns pecados, o filme mostra a qualidade de produção que a Netflix possui, mesmo quando o produto não é feito para o cinema.

Aníbal Ariarte é um policial misterioso que vai de Madri a Barcelona para investigar o desaparecimento de armas do exército. Um grupo de anarquistas são suspeitos do roubo e durante a investigação uma luta entre eles e a polícia começa. Ariarte acaba fazendo um jogo duplo, onde seu único objetivo é recuperar as armas roubadas e evitar que uma verdadeira guerra comece nas ruas da cidade.

O maior erro de Gun City está na construção de seus personagens. Embora todas as atuações sejam ótimas, falta profundidade no roteiro. Todos são apresentados de maneira superficial, até mesmo o protagonista, impedindo um envolvimento maior com o filme. Claro que levaria muito mais que 126 minutos para que isso acontecesse, então seria o caso de uma minissérie, o que cairia muito bem para a história.

A semelhança com filmes mais antigos do gênero é um ponto positivo, com isso De la Torre consegue nos dar referências, ajudando na ambientação. Se os personagens fossem melhor trabalhados, certamente a imersão seria maior, mesmo sendo um filme que se assisti em casa e não nos cinemas.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Suntan (2016)


III Mostra de Cinema Grego - Depois de assistir Kinetta fiquei com certo receio do cinema grego mais recente. Como disse sobre Kinetta, é um filme tão autoral que acaba fugindo do entendimento do público, como se feito apenas para o diretor/roteirista. Mas gosto de correr riscos e isso foi muito bom. Suntan, dirigido e roteirizado por Argyris Papadimitropoulos (co-roteirizado por Syllas Tzoumerkas), me surpreendeu. Embora tenha um quê apelativo, a produção viaja entre as emoções de seu protagonista, chegando a algo parecido com um terror psicológico.

Kostis, um médico de meia-idade, chega a uma ilha grega que no inverno é tranquila e vazia, mas no verão é frequentada por inúmeros turistas e embalada por festas alucinantes. Anna é uma das turistas que Kostis precisa atender após um acidente de moto. O doutor se sente atraído pela mulher, que tem a metade de sua idade, e quando se dá conta, está passando suas noites entre baladas e bebedeiras. Apaixonado, Kostis não se dá conta do que está acontecendo e isso começa a afetar seu trabalho.

Uma das gostei que gostei foram os planos abertos, não me lembro o nome da ilha, mas certamente sua beleza foi bem aproveitada pelo diretor. Claro que temos os focos que captam as expressões dos personagens, que no caso do protagonista é essencial para o desenvolvimento de sua persona. E falando nisso, o trabalho de Makis Papadimitriou como Kostis é excelente. Embora possua uma filmografia extensa, mas muitas vezes de difícil acesso, ainda não conhecia seu trabalho. Os outros atores são medianos, mas cumprem seu papel, apenas Elli Trincou (Anna) participa mais do filme. Na maior parte do tempo o trabalho é feito por Makis e alguns figurantes.

Suntan é apelativo em algumas cenas e pode incomodar o mais conservadores, mas acredito na necessidade de cada cena, para que possamos entender o psicológico de seu protagonista. Não sei bem se esse filme de Papadimitropoulos pode ser rotulado como um filme de arte, tão pouco algo autora, é um filme deveras leve, aproveitando a beleza de uma ilha grega, deixando sua história ainda mais desconcertante, mas certeira.

domingo, 4 de novembro de 2018

Setembro (September, 2013)


III Mostra de Cinema Grego - Como encarar a morte daquele que chamamos de melhor amigo do homem? Essa é a premissa que a diretora Penny Panagiotopoulou usa para fazer um ensaio sobre a solidão em Setembro, seu segundo filme lançado nos cinemas.

Anna vive com Manu, seu cachorro. Ela não precisa de mais ninguém em sua vida, Manu a acompanha em todos os lugares. Durante seu período de trabalho, o cachorro fica no carro e frequentemente é levado para passear. Quando Manu começa a ficar doente, é levado ao hospital, onde morre. Anna o enterra no quintal da família que mora em frente e, mediante a compreensão de Sophia, ela tenta fazer parte daquela família. Vemos um ensaio sobre a solidão e a compaixão, que muitas vezes são encaradas como loucura por outros personagens.

É muito mais fácil compreender a situação da família vizinha que a da protagonista. Anna sufoca. Quando não está presente fisicamente, está a espreita, transformando sua carência em uma obsessão. Sua intromissão se torna engraçada em alguns casos que acontecem no começo, então rimos do azar da família que ela escolheu para importunar. Mas conforme as coisas vão se desenrolando e vemos Anna jogando baixo, mudamos de lado e queremos que ela deixe a família em paz. Algumas opções de melhorias lhe são oferecidas, mas insiste em fazer parte de uma família que não é sua, e pouco fazem questão da sua presença. Então ela atinge um ponto que nenhuma família aceitaria, quando suas ideias são anunciadas já duvidamos que ela seria capaz de fazer isso. Depois do choque de ser expulsa da família da qual não fazia parte, ela se renova e ainda encontra seu final feliz.

Confesso que não tinha muitas expectativas em relação ao filme, mas me surpreendi. A partir de uma história simples a diretora explora diversos sentimentos dos personagens e de quem está assistindo ao filmes. Talvez quem já teve um cachorro, e precisou lidar com a morte dele, os sentimentos sejam ainda mais fortes. Achei September um filme muito interessante, é uma pena que tenha sido exibido apenas uma vez durante a Mostra, certamente muitas outras pessoas deveriam assisti-lo.

sábado, 3 de novembro de 2018

Kinetta (2006)


III Mostra de Cinema Grego - Precisei fazer umas pesquisas para tentar entender melhor o diretor Yorgos Lanthimos e assim conseguir absorver o que vi em Kinetta. Mas acredito que procurar entender sobre o diretor só complicaria mais as coisas. Depois de uma breve pesquisa cheguei a conclusão que não há nada que precise de tanto entendimento assim, Kinetta é uma obra autoral que viaja nos delírios de Lanthimos.

Temos três personagens: um policial, apreciador de BMWs (mas tenho minhas dúvidas se ele não seria apenas um diretor obcecado pela violência), uma camareira e  fotógrafo. Os três se unem para simular assassinatos que acontecem na cidade de Kinetta, na Grécia. A cidade é tranquila e normalmente os três personagens fazem o seu trabalho (daí surge minha dúvida se o policial é mesmo o que a sinopse oficial diz), gravando as cenas de violência nos intervalos do mesmo.

A história parece uma loucura e a produção não fica para trás. Muito devido ao câmera que se mexe tanto -- mesmo em cenas mais estáticas -- que chega a incomodar. Tudo vai acontecendo lentamente, entre poucos diálogos e com a câmera chacoalhando. Mas algo nos mantém atento, espero que aconteça qualquer coisa que nos tire daquela monotonia. Mas nada tira e ainda assim continuamos assistindo.

Mas nem tudo é tão ruim. Percebe-se nos personagens uma frieza inumana. Em meio a toda violência, que algumas vezes vai além da ficção, os personagens agem com tamanha naturalidade, fazendo tudo parecer normal. Talvez seja esse o intuito do diretor, mostrar uma essência do ser humano que pouco vemos, mas que pode existir a partir da monotonia do dia - a - dia.

Esse é um dos filmes que valeria a pena acompanhar um bate - papo depois da sessão. Imagino opiniões bem diversificadas e algumas ainda mais loucas que o próprio filme. Mas por fim, não sei explicar esse Kinetta, só sei que de tão estranho, te prende até o fim.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

O Batalhão dos Descalços (To Xypolyto Tagma, 1954)


III Mostra de Cinema Grego - Até o dia 11 desse mês acontece na Cinemateca Brasileira a III Mostra de Cinema Grego. Reunindo alguns filmes do século passado e outros mais contemporâneos, serão exibidos 11 títulos, alguns inéditos no nosso circuito, todos com entrada gratuita. No segundo dia da mostra assisti O Batalhão dos Descalços, filme com direção de Gregg C. Tallas, projetado em 35mm.

 O filme conta a história de um grupo de jovens que, durante a invasão alemã na Grécia, roubavam comida e remédio dos militares alemães para ajudar os moradores de Tessalônica. A história é contada por um dos garotos, agora já na idade adulta, ao se deparar com um menino na situação em que ele se encontrava na época em que tudo aconteceu. A resistência empenhada pelos jovens vai além do caráter político, mostrando o valor social, que é retribuído sempre que eles precisam de cobertura dos moradores.

O Batalhão dos Descalços me lembrou Capitães da Areia – o livro, pois o filme de Cicília Amado foi um fiasco. Embora as crianças se encontrem em situações diferentes, encontramos algumas semelhanças, o que me fez indagar a possibilidade de que o diretor Gregg C. Tallas ter bebido um pouco da história de Jorge Amado para ter desenvolvido seu filme. Mas essa dúvida terá de continuar, já que pouco material sobre o filme é encontrado na internet, mas sendo ou não o caso, é uma ótima semelhança. São poucos os filmes dos anos 1950 que assisti, do cinema grego não acho que tenha assistido algum. Mas algo me chamou atenção, o uso dos planos abertos e o modo como as cenas funcionam durante a noite, algum que deveria ser um grande problema na época. A música também é muito boa, precisa, e as atuações completam a grandiosidade da obra.

Pouco conheço sobre o cinema grego, mas gostei do que vi em O Batalhão... e certamente pesquisarei mais sobre o diretor. Um filme rápido, mas que merecia mais tempo. No fim da sessão ainda fica aquela vontade de ouvir mais algumas histórias sobre os garotos que diante de todos os problemas que encontravam para si, ainda pensavam em ajudar o próximo, usando suas únicas armas para desmantelar um sistema repressivo: o roubo. A Mostra de Cinema Grego está com uma programação bem interessante (confira aqui) e espero conseguir assistir ao menos mais dois ou três filmes. 

O Último Comandante (El Último Comandante, 2010)


Faz um tempo que assisti O Último Comandante, dirigido por Isabel Martínez e Vicente Ferraz, mas entre minhas leituras e notícias que leio por aí, me lembrei de algumas cenas do filme. Embora a história seja um tanto fraca e, algumas vezes, sem graça, ainda conseguimos ter ideias sobre a situação de revolucionários sadinista alguns anos depois do movimento.

Paco Jarquín (personagem fictício) era um dos grandes líderes na Revolução Sadinista, que começou na Nicarágua nos anos 1970. Seu carisma e liderança fez com que muitos o seguisse. Anos depois ele reaparece, mas rejeitando seu passado combativo, mesmo diante de novos problemas políticos na Nicarágua, e assumindo um papel como um fracassado professor de dança. No decorrer do filme vemos suas decisões que o levaram e tiraram da frente de batalha. Embora muitas vezes o julgamos por essas decisões, podemos perceber a dificuldade que é lutar por uma causa tão reprimida por um alto escalão da sociedade. Mas o anonimato de Paco acaba quando alguns dos seus ex - companheiros de batalha começam a te procurar.

O que pensamos a cada cena é por que Jarquín perdeu seu espirito revolucionado sendo um personagem tão inspirador durante a revolução, e inda, por que muito ainda insistem em querer dar continuidade a ela. O fato é que assim como muitos, o protagonista é uma pessoa comum, que cansa assim como qualquer outra. Com isso, ele planeja sua "morte" e parte em busca do que mais o interessa: mulheres e dança. Mas é decadente ver no que ele se tornou, ou ainda mais decadente a carência de quem acreditou nele e ainda espera por um levante revolucionário.

Embora o filme tenha um valor pessoal para os diretores -- Isabel Martínez viveu na Nicarágua durante a Revolução Sadinista e Vicente Ferraz pôde acompanhou tudo o que acontecia aqui do Brasil --, o filme é um tanto arrastado, cansativo. A história é boa, mas os planos não ajudam. A história é boa, as atuações simples, porém precisas, mas falta algo que dê ritmo. Claro que não esperamos tiros e sequestros, a revolução já passou, mas a trama se desenvolve de modo tão arrastado que chega a desanimar. No fim, O Último Comandante vale pela história e uma ideia ou outra, poderia ser melhor se tivesse ritmo e planos mais elaborados. Algumas coisas se fazem faltar e com isso o filme fica no limite para ser mediano.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Legalize Já - A Amizade Nunca Morre (2017)


Os anos 90 marcanram o cenário musical brasileiro. Enquanto o manguebeat ganhava a cena em Recife (isso pode ser visto em Lama dos Dias, minisérie produzida pelo Canal Brasil) e o rock crescia em São Paulo, seguindo os passos de bandas como Titãs, Capital Inicial e Paralamas (leia sobre isso na analise do doc Sem Dentes: Banguela Records e a Turma de 94), no Rio de Janeiro começava um novo movimento que consagrou umas das bandas mais icônicas da década. Legaliza Já - A Amizade Nunca Morre, dirigido por Gustavo Bonafé e e co-dirigido por Johnny Araújo, nos mostra as origens da Planet Hemp, banda que se formou a partir da necessidade de brigar contra o sistema.

Tudo começa quando Skunk (Ícaro Silva) esbarra com Marcelo (Renato Góes) em uma rua no Catete, ambos correndo da polícia. Com seus pertences trocados por destino ou acaso, acabam por descobrir o artista que existe em cada um. Discutindo temas que envolvem música, desigualdade, preconceito, aborto e aids, eles embarcam em uma aventura que, acima de tudo, demonstra a cumplicidade dos dois. A banda foi ganhando forma com a entrada de Formigão (baixo), Rafael Crespo (guitarra) e Bacalhau (bateria). Com um som diferente e agora como Planet Hemp, a dupla começou a ganhar os palcos do Rio de Janeiro.

O filme levou 9 anos para ser concluido. Tendo também como roteirista o próprio Marcelo D2, vemos com bastante autenticidade o que acontecia antes que ele atingisse a fama que carrega até hoje. A atuação de Ícaro Silva (Skunk) merece destaque, sabendo transpassar tudo que seu personagens sente, que permeia entre indignação e fragilidade, é a melhor atuação da produção. As histórias paralelas estão presente para montar o universo em que Skunk e Marcelo vivem. Vivendo como seres marginais, buscam em suas músicas a representatividade que não encontraram em nenhum outro lugar, e que ainda hoje não é encontrada por muitos.

Legalize Já não é só uma produção cinematográfica, é uma crítica social que nos leva além da visão superficial que nos é mostrada no dia a dia. E ainda, uma forte amizade que rompe barreiras e supera qualquer adversidade, terminando de forma trágica, mas que parecece mesmo nunca morrer. Para mim ainda ficou uma lição: quando Marcelo e Skunk discutem, um amigo questiona sobre a vontade do sistema, de colocar um contra o outro, dividir e conquistar. Acredito que estamos em um momento em que precisamos de um amigo em comum que também chame nossa atenção.

sábado, 27 de outubro de 2018

Amantes na Fronteira (2018)


MOSTRA SP - Em uma mistura luso - japonesa, o diretor Atsushi Funahashi monta uma história que, além das fronteiras, ultrapassa séculos e brinca com o destino de seus personagens. Amantes na Fronteira conta conta duas histórias movidas por sentimentos intensos que vai do amor incondicional ao sentimento aturdido de vingança.

A primeira história se passa no século XVIII. Uma jovem portuguesa é admitida como empregada em um casarão após seus pais serem mortos em um terremoto que destruiu uma parte de Porto. O dono do casarão retorna de sua viagem a Índia e traz consigo dois japoneses, logo a jovem se apaixona por um deles. Já em 2020 os mesmo atores vivem uma história semelhante, adaptada à modernidade. Agora o cenário é um Japão devastado por um tsunami e enfrentando uma crise econômica.

Antes da sessão começar uma das organizadoras leu uma mensagem do diretor, que deveria estar presente, mas por algum motivo que desconheço se encontrava no Japão. Na mensagem ele fala sobre suas intenções ao fazer o filme. Uma questão mais política que romântica, que dada a mensagem, fica fácil de perceber.

O filme conta com três atores que protagonizam as duas histórias. A atuação de Ana Moreira é excelente, ela vai do amor a loucura de forma tão natural que nos atrai. Os outros dois são Yûta Nakano e Tasuku Emoto, que formam seus pares em cada época. Recontar a mesma história, mesmo que com alguns aspectos diferentes, é uma grande risco, as vezes o filme se torna monótono demais. Mas quando as referências aparecem o espectador ganha novo ânimo. Acredito que o desafio é saber quando isso deve acontecer e, nesse caso, Atsushi Funahashi acertou.

A maneira como a época é ambientada também é boa. Fazer um filme de época não consiste apenas no figurino, tem todo o trabalho com os atores e cenário. Já em 2020, Ana Moreira assume um novo visual, que na hora me remete o cinema americano. Outra coisa que gostei foi a exploração do fado, estilo musical português. A letra que se repete diversas vezes conta mais do que vemos sobre o filme.

Não tem como esconder que, algumas vezes, Amantes na Fronteira se torna cansativo. Mas também devo dizer que vale a pena assistí-lo até o final, que surpreende. E talvez é ali, perto do final, que vi uma das melhores referências entre as duas histórias, fazendo os momentos de monotonia terem válido a pena.

Em Chamas (Buh-Ning, 2018)


MOSTRA SP - Parece que produções audiovisuais orientais estão ganhando um novo fôlego. Isso vai muito além da febre do k-pop, temos Kore-eda fazendo um cinema sensacional no Japão, e a Coréia (hora no sul, hora no norte) chamando bastante atenção com seus filmes e séries. Um desses filmes é Em Chamas, filme do diretor e roteirista Lee Chang-Dong, que aposta nas suposições do espectador em mais de duas horas de filme.

Jong-soo (Yoo Ah-In) é um sujeito simples que trabalha como entregador. Em um dia comum ele encontra Hae-mi (Jeon Jong-seo), uma amiga de infância que a muito não via. Essa reaparição promete quebrar a monotonia de sua vida, isso e a necessidade de voltar a casa de seu pai para resolver um grande problema. Depois dessa reaproximação de Hae-mi surge um novo personagem, Ben (Steven Yeun). Com um triângulo amoroso formado, Chang-Dong nos leva a explorar aspectos sociais e econômicos que fazem parte do dia a dia da Coréia do Sul.

Esses problemas mostram a diferença entre o cidadão pobre, que aos poucos consegue sobreviver, e o muito rico, que esbanja uma falsa modéstia perante aos menos favorecidos. Mas o filme deixa essa visão romântica de lado quando um crime é exposto. Quando Ben fala sobre o seu hobby para Jong-soo. É aí que percebemos como Chang-Dong trabalha com o imaginário de seus espectadores. A todo momento nos é dado pistas para desvendar mistérios, como quebra-cabeças que precisam ser resolvidos. Mas qual escolha tomar? Qual é o resultado certo? Isso nunca saberemos, pois a solução fica no ar, em aberto para que, assim como aconteceu comigo, dias depois ainda fiquemos com aquela pergunta na cabeça: o que será que aconteceu ali?

Em Chamas foi um filme que me surpreendeu. A proposta inicial de um garoto que encontra uma garota de sua infância e logo depois se envolve em um triângulo amoroso seria um daqueles clichês chatos de se ver. Mas Lee Chang-Dong trabalha de maneira singular, fazendo seu filme fugir do lugar comum, e isso é muito bom.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

A Voz do Silêncio (2018)


MOSTRA SP - O diretor André Ristum traz uma proposta simples em A Voz do Silêncio. Tendo como cenário a cidade de São Paulo, explorando toda sua forma caótica, vemos toda a solidão que uma cidade grande pode impor a seus habitantes. A família de Ristum foi amiga de Glauber Rocha e durante um tempo ele próprio trabalhou com Bertolucci, mas ainda assim seu filme traz um estética sua, se arriscando para mostrar a intensidade de seus personagens em cada cena.

A Voz do Silêncio conta a história de personagens que vivem a margem da cidade. Existe ali o desesperado causado pelo imediatismo, a monotonia e as dificuldades financeiras de quem luta para sobreviver em um ambiente de oportunidades limitadas, não adianta a vontade. Uma hora ou outra os personagens acabam se encontrando, como uma teia que coloca todos eles no "mesmo barco". Esse barco oscila, mas não afunda, entre tantas desventuras eles vão descobrindo suas dificuldades, reconhecendo seus defeitos e procurando supera-los, ou ao menos conviver em harmonia com eles.

Embora seu tempo em cena seja curto, ver Marieta Severo na tela é um atração a mais. Embora não detenha todo o protagonismo que certamente merecia, assume seu papel como pouco saberiam fazer. Pode ser que apareça pouco, mas sempre que isso acontece, ela deixa marcado em nossas cabeças toda a excentricidade de sua personagem, uma senhora que depois de se perder em meio a corriqueira São Paulo, se perde dentro de sua própria cabeça.

Gostei de A Voz do Silêncio. O proposta do filme é simples, mas explorada com uma dramaticidade tão intensa que ao final, em uma plano sequência de mestre, já não estamos esperando o fechamento de tantas histórias. Ficaríamos ali, sentados na cadeira do cinema por mais algumas horas, apreciando a monotonia que se encaixa no nosso dia a dia com tanta facilidade. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Guerra Fria (Zimna Wojna, 2018)


MOSTRA SP - Sempre que o assunto é Guerra Fria, o primeiro filme que me vem a cabeça é A Cortina de Ferro (The Iron Curtain, William Wellman, 1948). O mote é aquele clássico jogo de espionagem encontrado em filmes que seguem essa história. Mas o diretor e roteirista Pawel Pawlikowski muda esse conceito e constrói em Guerra Fria, um romance capaz de resistir as atrocidades sociais de uma guerra que nunca acabou.

No filme, o músico polonês Wiktor (Tomasz Kot) busca novos talentos de seu país para representar músicas do campo. Um desses talentos é Zula (Joanna Kulig), jovem aspirante a cantora e nova paixão de Wiktor. Então o filme segue durante quinze anos de encontros e desencontros dos personagens, com um leve panorama da Guerra Fria na década de 1960.

A estética do filme é interessante. Todo em preto e branco e a tela em 4:3 ao invés do widescreen. Em 2015 o diretor já havia trabalhado com algo do tipo, em Ida, filme que lhe rendeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Mas o que mais me chamou a atenção é como ele usa a música, que é parte central do filme, para contar a passagem do tempo. E em cada cena, por hora enquadrando um personagem e, em outros momentos, mostrando a sua solidão em meio a tanta gente, a direção de Pawlikowski beira a perfeição.

Embora Guerra Fria não demonstre muito todo o conflito que acontecia fora do relacionamento dos protagonista, há ali algumas abordagens stalinistas e repressivas. Diante de um romance que também parece com a guerra que corre mundo afora, caminhamos por cenários depressivos, mas de uma estética admirável.

domingo, 21 de outubro de 2018

Assunto de Família (Manbiki Kazoku, 2018)


MOSTRA SP - Vencer a Palma de Ouro é sinônimo de excelência para um filme. E esse é o novo feito do diretor Hirokazu Kore-eda, que através de sua nova produção explora o sentido do que é ser uma família e seus componentes. Assunto de Família traz uma história empática, onde acabamos por concordar com os personagens, estando eles certos ou não.

O filme começa com Osamu Shibata (Lily Franky) e Shota Shibata (Jyo Kairi) roubando um supermercado. De acordo com o pai, Osamu, o que está no supermercado não tem dono, já na opinião da mãe, Nabuyo Shibata (Sakura Ando), "se a loja não falir, está tudo bem". Mas na apertada casa entre prédios, vemos uma família peculiar, que na verdade não é bem uma família na qual nascemos, mas um onde os membros escolheram participar.

A chegada de Juri (Mayu Matsuoka) reforça essa ideia desconcertante que Kore-eda apresenta sobre família. A garota é encontrada no frio em frente a sua casa, Osamu e Shota decidem levá-la para comer algo e quando finalmente levam de volta para casa, percebem que ali não é o lugar onde uma criança deveria viver, então a "sequestram".

A distorção que esses personagens fazem do que chamamos de senso comum é um ponto de interesse. Além das justificativas já mencionadas sobre roubo, ainda acreditam que o que fizeram não é um sequestro, já que não estão pedindo resgate e nós, meros espectadores, aceitamos e apoiamos eles.

O grande destaque é a delicadeza com que Kore-eda conduz sua história. Relações familiares sempre foram recorrentes em suas produções, mas o que foi feito em Assunto de Família é diferente, é como se ele tivesse alcançado um novo patamar, onde seus filmes são mais intimistas, transformando o longa em uma verdadeira obra de arte.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A Ex-mulher (Qian Qi, 2009)


Eu tentei por dois dias. Fiz tudo o que podia. Mas não encontrei o cartaz original do filme. O jeito foi optar pelo cartaz da Mostra de Cinema Chinês, que chega em sua quarta edição. O pouco que vocês podem ver de A Ex-mulher está na quinta imagem, mais que isso acredito que só no cinema. Embora seja de difícil acesso, o filme de Qiao Liang (ou Liang Qiao, dependendo de onde você procurar) tem grandes méritos, que vai desde o uso dos elementos presentes no cenário, até a construção dos personagens.

É difícil achar qualquer material sobre o filme (não encontrei informações nem mesmo em sites como o IMDB), mas como assisti ao filme durante a Mostra, vou tentar dar uma sinopse sem muitos spoilers.

Ding é um jornaleiro divorciado e vive com sua nova mulher em uma casa bem simples. Mas quando sua ex-mulher, com quem ele tem um filho, é diagnosticada com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) ele precisa ajudá-la. Quando a doença atinge um estágio avançado, Ding a recebe em sua casa e agora precisa lidar com sua ex-mulher e sua mulher atual morando embaixo do mesmo teto.

São muitos elementos que fazem de A Ex-mulher um bom filme. A começar pelos cenários. Usando na maior parte do tempo cenários interiores, Qiao Liang nos dá proximidade e essa aproximação nos faz interagir com os personagens através de expressões e gestos. Os personagens são construídos com suas particularidades. Qiao Liang explora todas elas, fazendo com que todos eles ganhe destaque. Cada indivíduo lida com a doença de uma forma diferente, temos quatro pontos de vista diferentes, desde a criança até a ex-mulher.

Segundo Qiao Liang (que participou de um bate papo após a sessão), a história de A Ex-mulher é baseada em um história real e o ELA está mais presente do que imaginamos na China. Encontramos um misto de emoções que vão ditando o ritmo do filme através de pessoas comuns, e até bem simples, que precisam se unir por algo maior que elas.

histstá aproveitando a Mostra de Cinema Chinês não tem do que reclamar, em apenas dez dias ela apresenta, além de A Ex-mulher, filmes bons e que dificilmente encontrarmos por aqui. Esse curto período de exibição não me permitiu assistir nenhum outro filme, mas A Ex-mulher garantiu minha presença na próxima edição.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Todo clichê do Amor (2018)


Quando assisti ao trailer de Todo Clichê do Amor, filme de Rafael Primot, pensei "mas que filme é esse?", certamente era um que eu não assistiria. Mas então o acaso colocou a produção no meu caminho e, logo nos primeiros minutos, percebi que o longa é muito mais do que seu trailer havia mostrado. A história escrita por Primot, que também atua, se desenrola de uma forma leve e pouco parece uma comédia, gênero no qual foi encaixado.

O filme narra três histórias, e já devo dizer que a forma como Primot junta elas é genial. Temos a prostituta (Majoire Estiano) casada com um ator pornô (João Baldasserini) e que decide ter um filho.  Um entregador (Rafael Primot) apaixonado por uma garçonete (Débora Falabella). Uma jovem grávida (Amanda Mirásci) e a madrasta "má" (Maria Luísa Mendonça). E um casal formado pelos atores Eucir de Souza e Clarissa Kiste, que precisam reencontrar o amor um pelo outro.

Todo o clichê fica de lado conforme a peculiaridade de cada personagem é apresentada. Usando a metalinguagem, o diretor mostra todas as limitações de cada um. Temos como características a cegueira, falta de tato, comunicação corporal e até uma doença rara. Mas o que todos os personagens trazem em comum é a carência. Mostrada de formas diferentes todos sentem esse mal e reagem a ele de sua maneira. A necessidade de todos é a mesma, ter alguém para compartilhar as veredas da vida.

Todo Clichê do Amor me surpreendeu. Esperava uma comédia escrachada, sem sentido. Mas o que vi foi um filme que usa piadas para dar ritmo, mas na maior parte do tempo explora um sentimentalismo desconcertante. Como diz a personagem de Majorie Estiano: "É quase brega, mas eu achei legal".

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Na Própria Pele - O Caso de Stefano Cucchi (Sulla Mia Pelle, 2018)


Embora tenha o entretenimento como base, o cinema nem sempre se resume a isso. Na Própria Pele - O Caso De Stafano Cucchi, do diretor Roman Alessio Cremonin, mostra isso. Acompanhando os últimos dias de Cucchi, o filme mostra a falta de preparo de policiais que, muitas vezes, usam o poder que lhes é fornecido, para reprimir o cidadão. E acredite, isso não acontece apenas no Brasil.

A narrativa se trata da história real de Stefano Cucchi. Aos 33 anos, depois de deixar uma clínica de reabilitação, ele tenta seguir em frente. Mesmo não tendo deixado as drogas totalmente, ele trabalha com seu pai e passa a maior parte do tempo com sua família. Certa noite decide passar um tempo com seu amigo, onde faz uso de drogas ilícitas. Quando abordado por policiais, a história começa a piorar, mas a situação chega ao ápice quando chegam dois investigadores. Depois disso, nada mais acontece como deveria.

Cremonin constrói quase um documentário. É certo dizer que nem tudo aconteceu conforme o que se mostra no filme, já que fica claro que nem os familiares conseguiram ver Stefano antes de sua morte. Mas a atuação de Alessandro Borghi é tão intensa que conseguimos captar a essência do que pode ter acontecido.  A câmera ajuda. Os enquadramentos e aproximações fazem parecer que ali havia um espião, flagrando cada injustiça sofrida por Cucchi. Mostrando que todo esse papo de "reabilitar o indivíduo a sociedade" não passa de hipocrisia, por parte do sistema policial.

Foi preciso certo cuidado por parte de Roman Alessio Cremonin, pois o fato ainda gera debates na Itália. Mas ele executa bem seu trabalho, sem exageros. Embora pareça faltar uma cena ou outra - como mostrar as agressões acontecendo -, acredito que o filme perderia muito sua credibilidade se isso fosse mostrado, seria só mais um. No fim, vemos mais uma vez o cinema ir além do entretenimento. Usando sua mágica para denunciar, não sendo apenas aquele "circo"  que os modernos "imperadores" nos oferecem.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Vazante (2017)


Vazante já iniciou sua carreira sendo um filme polêmico. Em sua estreia na 50º edição do Festival de Brasília de Cinema Brasileiro (2017), a diretora Daniela Thomas enfrentou um debate acalorado sobre a atuação de negros em seu filme. Fora isso, o filme foi adorado, como não poderia deixar de ser, e ganhou destaque em outros festivais.

Na cidade de Vazante, no interior de Minas Gerais, vivem donos de terras, gados e escravizados. O filme passa por diversas situações, que vai da vida injusta levada pelos negros vindos do continente africano, até a situação de brancos menos afortunados. Mas o foco é o casamento de um tropeiro português, com seus 50 anos, com uma jovem de 12 anos. História essa que a diretora afirma ter sido contatada por seu pai e que já está na família há tempos.

O trabalho da diretora Daniela Thomas é excelente. O filme em preto e branco nos ajuda a assimilar as situações à época. Vemos escravizados insatisfeitos, como era de se esperar, e sinhozinhos pouco confortáveis com essa situação. É preciso entender que no filme as coisas são narradas com ideias do que acontecia nos anos 1820. A forma como é contada, mérito da montagem, ameniza qualquer situação que poderia elevar a emoção, transformando tudo em algo comum, corriqueiro, como devia ser.

Tendo como pilar o casamento entre o tropeiro e a garota, Vazante conta muitas histórias ao fundo. A hierarquia permeia entre uma cena e outra. Não é só em relação a submissão de negros em relação aos brancos. Também há essa submissão de negros com negros e brancos com brancos, é tudo uma questão de poder. Em meio a tantas dores, a câmera é aproveitada em cada cenário. Com poucos diálogos, ela se mostra necessária ao captar a expressão de cada personagem.

Qualquer filme que exponha os mesmos temas que Vazante, vai ser polêmico. Mas é um filme aberto a qualquer interpretação, mas o que provavelmente será unanimidade é sua beleza artística. Entendo a necessidade de tratar de temas que por muito tempo foram deixados de lado (leia Jeferson De, Spike Lee e o novo Cinema Negro), mas é preciso entender que nem sempre teremos heróis revolucionários, que são capazes de mudar uma nação. Algumas vezes uma história só precisa ser contada como ela realmente foi e isso não a coloca em cima do muro, as críticas estão lá, é só procurar ver.

domingo, 23 de setembro de 2018

O Rosto (El Rostro, 2014)


Embora tenha feito sucesso em festivais na Argentina, onde foi adorado por maior parte da crítica e publico, El Rostro é um filme difícil de se achar. Mesmo sendo dirigido por Gustavo Fontán, o longa não ganhou destaque fora do país, talvez por ser uma produção independente, ou pelo fato de ser um filme tão singular.

Um homem atravessa o rio para o que parece ser um almoço em família. A fogueira e acesa para esquentar a água, o peixe é pescado e enquanto o almoço vai sendo preparado mais personagens, de diversas idades, vão surgindo. A narrativa não nos promete nada de muito empolgante, nenhum plot twist é anunciado, logo, nada incomum acontece.

A escolha de Fontán em usar 8mm e 16mm dá um ar documental ao longa e nos leva de volta aos anos 1930. Dando ritmo a monotonia de um dia comum, a trilha sonora é desconcertante. Hora escutamos as coisas antes mesmo delas acontecerem, hora temos um som que não condiz com o que está passando na tela.

É fácil perceber porque O Rosto foi tão bem aceito pela crítica argentina. Embora seja um filme lento e bem específico, sua monotonia é atraente. Vemos as paisagens através de uma fotografia que parece ser feita por um amador, algo presente no cinema independente de Gustavo Fontán. E quando aceitamos o fato de que o diretor sempre busca trabalhar novos ensaios e experimentações, El Rostro passa a ser uma grande obra.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Uma Viagem à Lua (Un Viaje a La Luna, 2017)


Embora receba o mesmo título, Uma Viagem à Lua não tem mais que algumas homenagens visuais ao curta-metragem de Méliès. O filme de Joaquín Cambre usa a viagem a lua como uma forma de representar o imaginário de um personagem muito peculiar.

Tomás (Angelo Mutti Spinetta) tem 13 anos, um trauma causado quando ainda era pequeno faz com que ele frequente um psicólogo e tome medicação. Se não bastasse, uma viagem em família que parece há muito programada faz com que ele seja sufocado por sua mãe, uma grande atuação de Leticia Brédice. A pressão vem de todos os lados, desde seu amigo de escola, que assim como ele, precisa passar em geografia. Até o surgimento de uma possível primeira namorada. O refúgio de Tomás está na astronomia. Seu desejo é viajar a lua e quando decide parar de tomar sua medicação, começa a construir seu "foguete espacial".

Embora não apresente nada de novo, ou diferente, Uma Viagem à Lua não se trata apenas de um filme adolescente. Com simplicidade Cambre consegue ir um pouco além. Além de Tomás temos toda sua família e vemos como ela lida com os problemas que a adolescência leva a ele. E a forma como o diretor, que ao lado de Laura Farhi também assina o roteiro, explora o imaginário do protagonista é um dos destaques do filme.

Não há muito o que dizer sobre Uma Viagem à Lua. De todos os filmes argentinos que já assiste, acredito que esse é um dos poucos que buscam explorar a experiência humana fora do cenário real e, mesmo sendo mediano,  vale a pena por sua fotografia - as cenas na piscina vazia são belas e contam mais do que os olhos veem - e a forma como Joaquín Cambre explora todos os elementos disponível, fazendo um filme que começa como uma dramática história adolescente e termina em um drama psicológico.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Como Nossos Pais (2017)


Precisei assistir Como Nossos Pais duas vezes antes de escrever qualquer coisa. Um dos motivos é que o filme tem tantas particularidades que muitas precisam ser revistas para que sejam analisadas com justiça. O filme de Laís Bodanzky conta uma história simples, mas com uma intensidade instigante.

Rosa (Maria Ribeiro) é uma mulher forte. Busca o perfeccionismo em seu trabalho, precisa lidar com as filhas pré adolescentes, que exigem sua atenção a todo momento, e o descaso do marido (Paulo Vilhena) em relação a isso, e cuidar da casa. Se não bastasse, vive em constante conflito com sua mãe (Clarisse Abujamra). Seu mundo desmorona quando descobre que o homem que a criou, e quem ela tanto admira, não é seu pai biológico. O forma como essa descoberta acontece é o que faz Rosa perder a calma e se entregar a um conflito emocial. Porém, ainda não acabou. Logo depois sua mãe revela que está doente e talvez não tenha muito tempo mais.

O grande destaque fica na conta de Maria Ribeiro, que atuação! Fazia tempo que não via nada dela, ainda tinha a sua personagem se Tropa de Elite na cabeça. Confesso que não esperava muito do filme em geral, mas Rosa chamou minha atenção do início ao fim. Clarisse Abujamra também merece destaque, mas essa já era de se esperar. Notamos sua empolgação nas discussões com a filha e a falsa calmaria que chega de uma  hora para a outra. Certamente não foi um papel dos mais fáceis.

Mas a brilhante atuação de Maria Ribeiro não salva alguns momentos do filme. O trabalho de Laís Bodanzky é ótimo, mas faltou atenção em cenas como a relação de Rosa com seu amante e seu trabalho. Esses casos poderiam enriquecer o filme ou serem descartados, o meio termo fez parecer que ela não sabia bem o que fazer com aquelas partes da história.

No fim, Como Nossos Pais é um grande filme. Devo dizer, mais uma vez, que a atuação de Maria Ribeiro faz valer cada minuto. O longa foi para Berlinale e ganhou prêmios fora e dentro do Brasil, e não por acaso, foi tudo merecido.

Takara - A Noite Em Que Nadei (Takara - La nuit où j’ai nagé, 2017)


Sabe aquela impressão que temos, que quando criança o caminho até a padaria é longo e uma grande aventura? Takara - A Noite Em Que Nadei traz essa impressão. Os 79 minutos parecem durar horas. Um filme sem diálogos e planos longos é uma manobra arriscada. Mas o trabalho dos diretores Kohei Igarashi e Damien Manivel é excelente e poderíamos ficar mais tempo contemplando cada cenário.

Takara é um jovem de seis anos que decide sair em uma aventura. Nada do que acontece é por acaso ou feito sem planejamento. O filme dividido em três partes nos indica o clímax de cada momento. No começo temos o objetivo, levar um desenho em algum lugar. Notamos que essa "missão" já havia sido planejada quando o garoto pega uma fruta escondida no meio da neve e começa sua jornada. Então vem o processo, um longo caminho até a cidade que parece tão grande para uma pequena criança. Mas não existe perigo, em nenhum momento precisamos nos preocupar com a segurança de Takara. Por fim, o retorno para casa.

Desapegados de muitos clichês que levariam o filme a mesmice, Igarashi e Manivel criam uma história despretensiosa e imprevisível. A forma como o filme é dividido em partes nos ajuda a entender o que está acontecendo sem estragar as surpresas. É difícil descobrir qual a motivação de Takara. Mas quando isso acontece lembramos de cada detalhe e ficamos maravilhados com tamanha a ousadia do garoto e o quão forte uma criança pode ser.

É interessante saber que todos os atores faziam parte de uma família, no filme e na vida real. Embora os outros integrantes sirvam mais como um background para a jornada de Takara, talvez essa proximidade tenha feito sua atuação ser tão leve e direta. A normalidade com que ele interpreta seu personagem faz parecer que aquele é só mais um dia de sua vida real. Como se não houvessem câmeras gravando seus passos.

Mais uma vez devo dizer que o trabalho de Igarashi e Manivel é formidável. Eles conseguem, de uma maneira minimalista, capturar a essência que o personagem emana. Isso sem precisar que ele diga qualquer coisa. A câmera baixa em momentos cruciais, nos mostrando o tamanho que a cidade é aos olhos de uma criança. Os planos longos que nos deixam mais imersos na narrativa. São muitos elementos que fazem de Takara - A Noite Em Que Nadei uma grande obra do cinema.

sábado, 15 de setembro de 2018

Benzinho (2018)


Histórias comuns estão cada vez mais tomando conta do cinema latino-americano. Só no Brasil tivemos filmes como 'Arábia', 'Como os Nossos Pais' e, um que gosto sempre de lembrar, 'Que Horas Ela Volta'. Tratar de temas que estão presentes no dia-a-dia virou um praxe desse cinema. Mas isso não é uma coisa ruim, Benzinho, de Gustavo Pizzi, é uma prova disso.

O filme mostra um momento na vida de Irene (atuação brilhante de Karine Teles) em que ela sente-se sobrecarregada, um daqueles momentos em que tudo parece dar errado e os problemas não param de chegar. O filho mais velho recebe uma proposta para jogar handball na Alemanha. O marido (Otávio Müller), dono de uma pequena livraria, decide empreender em outro ramo que provavelmente não vai dar certo. A irmã  (Adriana Esteves) vai morar em sua casa depois de apanhar do marido. Além disso tudo, a casa está caindo aos pedaços e sua única fonte de renda está em perigo. E agora, Irene?

Embora todos os personagens tenham seus problemas, não vemos uma vitimização. Os problemas precisam ser resolvidos e é isso que eles fazem, ou tentam. Uma das melhores cenas é quando Irene, no escuro, coloca seu headphone e se liberta ao som de Karina Buhr. Pode ser exagero, mas essa cena me lembrou Dançando no Escuro (2000), vendo que ali existem os sentimentos de perda, solidão e a falta/necessidade de dinheiro para a vida seguir em frente.

Benzinho é só elogios. A direção de Pizzi é formidável. O elenco, com destaque para Karine Teles, é sensacional. A fotografia é muito bonita, a cena em que estão na frente da casa, depois da janela quase ter ido ao chão, mostra um resumo de tudo, como se dissesse "está tudo desmoronando, mas sabemos que vai melhorar". O filme ja recebeu prêmios dentro e fora do Brasil e, ao que tudo indica, virão muitos mais.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Quase Memória (2018)


Esse filme tem me perseguido. Abri esse post no blogger ainda em abril, mas só agora tive uma cooncepção mais clara do que o diretor Ruy Guerra pretende mostra com sua produção. Quase Memória nos leva a uma viagem que permeia entre o real e o imaginário, onde um homem de meia idade entra em questionamento com uma versão mais nova de si, através das suas quase memórias.

Adaptado do livro homônimo de Carlos Heitor Cony, o filme mostra Carlos em duas época diferentes. A chegada de uma correspondência inesperado causa o encontro dos dois que, juntos no mesmo espaço-tempo, divagam sobre o pouco que lhes resta de sua memória. O que um lembra, pode não ser a mesma coisa que o outro, daí surgem conflitos, complementos e até mesmo deserções de suas lembranças.

O tempo que separa os dois é mostrado através de notícias. Enquanto o Carlos mais novo vive a repressão da ditadura militar, sua versão mais velha recebe a notícia da morte de Ayrton Senna. Mas quem ganha maior destaque é Ernesto (João Miguel), o pai. Responsável pelas cenas mais cômicas, ele toma maior parte do filme, tendo sempre suas aventuras contadas por outros personagens. 

Quase Memória é uma obra de Ruy Guerra. Embora fuja um pouco do livro, o diretor toma a liberdade de usar sua criatividade na construção da história, contando com um ótima atuação de Tony Ramos.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Meninas Aranha (Niñas Araña, 2017)


Baseado em fatos reais, Meninas Aranha conta uma história muito repercutida no Chile. Dirigido por Guillermo Helo, o filme mostra o caso de três jovens que, em 2005, escalavam prédios de luxo para praticar seus roubos.

O filme começa com Avi, Cindy e Estefany, ambas com 13 anos, furtando uma banca para conseguir uma revista juvenil. Em posse da revista, elas se deslumbram com a casas e roupas de famosos e almejam um dia viver assim. Então decidem visitar os bairros mais ricos da cidade, para ver como a classe alta vive. A vontade de ter todas aquelas coisas que veem nas vitrines do shopping e estarem ali, tudo tão fácil, as levam a cometer o segundo furto mostrado pelo filme. Quando damos conta, já estão entrando em apartamentos.

Meninas Aranha funciona mais como um fácil documentário, embora simplista demais. Existe uma crítica social, a situação das garotas, o bairro onde moram (a "comunidade modelo", em Peñalolén) e seus problemas pessoais as levam a cometer esses delitos. Mas acredito que tenha faltado um aprofundamento na questão. Tudo isso foi mostrado de maneira muito superficial, como se não fosse o ponto chave do filme.

Por fim, Meninas Aranha não recebeu a atenção que uma história como essa merecia. O filme não chegou nem a participar de festivais no próprio país e pouco ouviu-se sobre ele em 2017. Embora tenha ganhado minha atenção, não tenho certeza se é um filme que vale o tempo dedicado a ele. A ideia é boa, mas a produção é muito fraca.

domingo, 9 de setembro de 2018

Diante dos Meus Olhos (2018)


Publicado originalmente no site Esquina da Cultura.

Contar uma história através de documentário não é um trabalho fácil. O uso de arquivos é algo primordial para que a narrativa faça sentido. Mas quando o material é escasso, o que define a qualidade do trabalho é a criatividade do diretor. Em Diante dos Meus Olhos a criatividade de André Félix foi precisa e fechou com chave de ouro o último dia do Festival de Cinema de Vitória.

O filme acompanha Afonso Abreu, Mario Ruy e Marco Antônio Grijó, membros da banda Os Mamíferos, que atuaram no cenário musical capixaba entre 1966 e 1970. Nesse tempo não lançaram nenhum álbum e pouco material foi registrado. Mas é um nome importante para quem busca entender a contracultura dos anos 1960. É isso que André Félix nos mostra, acompanhando o dia-a-dia dos ex-integrantes da banda, que resgatam seus dias de glória.

O grupo Os Mamíferos começou o movimento da contracultura em 1966 e atingiu o ápice em 1968. A banda levava ao palco um estilo psicodélico, diferente do que vinha acontecendo no Brasil. Essa foi umas das bandas que, mesmo fora do trecho Rio-São Paulo, ganhou destaca na década de 1960. Depois de cerca de 50 anos, os relatos daqueles que integraram a banda mostra porque mesmo diante de tudo o que fizeram, são pouco conhecidos hoje em dia.

Um dos fatos que causam essa invisibilidade é a escassez de material. Não ter gravado nenhum álbum torna difícil o acesso as músicas da banda. Foi pensando nisso que André Félix decidiu produzir o documentário. “Me interessei pela investigação do que fez a banda não se tornar um clássico da música brasileira. A partir de então, fui entendendo como a vida dessas pessoas foi se desenrolando, e como a vida na cidade de Vitoria foi se desenrolando. Isso contribuiu para que história não chegasse para a nossa geração”, disse André ao Festival.

Diante dos Teus Olhos mostra uma fase importante para a música brasileira dos anos 60, ainda mais a sua importância para Vitória. O resgate feito por André Félix se mostra importante para que mais pessoas possam entender sobre o desenvolvimento da cultura regional, seus passos e percalços. O filme deve chegar aos cinemas em 2019 e quando isso acontecer a criatividade de André Félix deve ser levada em conta a cada exibição.

sábado, 8 de setembro de 2018

Cidade dos Piratas (2018)


Publicado  originalmente no site Esquina da Cultura.

A produção de A Cidade dos Piratas começou 20 anos atrás. Baseado nas tirinhas criadas por Laerte Coutinho em 1983, Otto Guerra, que já estava enrolado, ficou mais perdido quando Laerte desistiu do projeto, alegando que seu antigo trabalho era muito machista. O jeito foi entrar na história e narrar toda essa saga, dando elementos documentais a animação.

A narrativa conta várias histórias. A dos piratas, que querem contar suas aventuras, mas não sabem como fazê-lo. A de Laerte Coutinho e todo seu trajeto para se tornar uma mulher trans. E a do próprio diretor, que ao longo desses vinte anos teve que enfrentar funcionários abandonando o projeto, as adversidades da produção e um câncer. A animação reúne todas essas histórias, hora com graça, hora como crítica social. Porém, o que mais fica aparente é a loucura de Otto Guerra, que pode ser vista em outros trabalhos, mas nesse ficou totalmente explícita. Como foi dito por ele: “em 2013 eu pensei que iria morrer [devido ao câncer], então eu fiz essa loucura e agora estou aqui, passando vergonha.”

A Cidade dos Piratas brinca através de metáforas. Um Minotauro, que visto pelos olhos dos outros seria uma criatura monstruosa, é a mistificação dos desejos humanos. E o quanto do minotauro não existe dentro de cada um? E mesmo que não exista, qual o problema em existir nos outros? Essa é a ideia geral que a animação de Guerra tenta passar. Leva um tempo para entender, até mesmo Otto (em sua versão animada) pergunta que loucura é aquela que está acontecendo. Mas no fim, quando paramos para refletir sobre o que foi visto, e há muito o que refletir, vemos que somos todos um pouco minotauros e isso não nos faz uma pessoa má, só diferente.

O filme de Otto Guerra passou pelo Festival de Gramado, onde recebeu o troféu de menção honrosa, e chegou ao Festival de Vitória para sua segunda exibição. A Cidade dos Piratas é um filme polêmico que provoca uma série de emoções. Ainda sem data de lançamento nos cinemas, tudo o que podemos dizer é que quando chegar às telonas, vamos passar a ver muitos minotauros por aí.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A Chave do Vale Encantado (2018)


Publicado originalmente no site Esquina da Cultura.

Esse filme é uma desconstrução. Mas uma desconstrução poética dirigida e escrita por Oswaldo Montenegro. Reunindo uma série de personagens do imaginário infantil, A Chave do Vale Encantado ganhou a tela na quarta noite do Festival de Cinema de Vitória, e mais que isso, emocionou crianças e adultos com uma narrativa leve, musical e muito bonita.

O Vale Encantado é um lugar onde personagens como Chapeuzinho Vermelho, Príncipe Encantado e Papai Noel vivem em harmonia. Quando uma criança no mundo real sonha, eles entram em ação, encenando suas histórias. Mas quando eles estão dormindo, quem está no sonho deles? Isso é indagado pelo próprio Montenegro. A questão leva alguns personagens a furtarem a chave do Vale, que está em posse do Papai Noel. Com a chave, eles cruzam a fronteira do imaginário e se deparam com a decepcionante realidade.

Inspirado no livro Vale Encantado, escrito por Oswaldo Montenegro em 1994, esse é o quarto filme do diretor. A ideia inicial é fazer releituras das histórias infantis de forma divertida. Além disso, notamos que no mundo criado por Montenegro, mesmo que haja a existência do bem e do mal, eles convivem em harmonia, pois ninguém é totalmente bom, tão pouco totalmente mal. Além de tudo o filme comove, talvez mais adultos que crianças. Existe ali, através de músicas criadas para o filme e questões levantadas pelos próprios personagens, um panorama da felicidade e a procura de seu real significado, onde buscamos saber o quanto estamos próximos dela.

Embora despretensioso, A Chave do Vale Encantado nos faz pensar. O filme de Oswaldo Montenegro possui tudo o que é necessário para reunir a família na frente da tela. Diverte as crianças e faz os adultos voltarem aos velhos tempos. Mas além da diversão também vejo ensinamentos, até lições, que motivam o afeto, alegria e esperança.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Neville de Almeida: Cronista da Beleza e do Caos (2018)


Publicado originalmente no site Esquina da Cultura.

“O cinema é liberdade”. É com essas palavras que Neville D’Almeida, um dos grandes diretores do cinema brasileiro, recebe o Troféu Vitória na terceira noite do Festival. Para celebrar os 50 anos de cinema, Mario Abbade monta o documentário Neville D'Almeida: Cronista da Beleza e do Caos. Imagens raras e entrevistas com atores consagrados narram a trajetória desse sujeito tão polêmico no cinema brasileiro.

Neville D’Almeida é o diretor mais censurado de todos. Ele mesmo faz questão de deixar isso claro. Houve muitas brigas no meio audiovisual nos anos 1970, isso porque a censura marcava em cima. Muitos filmes não chegavam nem a ser exibidos. Os que conseguiam estavam cheios de cortes. Neville enfrentou isso durante toda sua carreira, já que levava  pornochanchada a níveis que a dita “família brasileira” não poderia suportar. Recebeu o título de “Maldito”, e seus filmes foram catalogados como algo que não o agrada: cinema marginal.

O documentário de Mario Abbade mostra esse processo, como o próprio título diz, Da Beleza e do Caos. Pode parecer que juntar entrevistas – uma fala aqui, outra ali, algumas cenas de filmes – é um trabalho fácil de se fazer. Mas notamos que Mario Abbade não buscou essa simplicidade. Algumas entrevistas com Neville são raras, mesmo os que acompanham o cinema brasileiro podem não ter visto muitas delas. Cenas de gravação e em lugares diversos que talvez nunca tenham sido exibidas na TV. Filmes censurados, hoje mostrados com naturalidade, sem censura, por meio do documentário. O trabalho de Abbade é ótimo e importante. Ver essa figura que mostrou ser possível trabalhar com o que quer e, mesmo diante de dificuldades, produzir algo que mude a visão de tudo o que temos sobre o cinema chamado por muitos de marginal, é algo necessário para os novos realizadores que estão procurando seu espaço.

Neville de Almeida: Cronista da Beleza e do Caos vai arrancar risadas, até gargalhadas, de muitos espectadores. Enquanto outros ficarão incrédulos tamanha sua ousadia. O que antes era necessário para uma boa pornochanchada, hoje pode ser visto como assédio, mas sem dúvida Neville mostrou em seus filmes o que era o Brasil. Mostrou o que outros não ousavam mostrar. Por isso foi censurado, tachado e catalogado. Mas o fato é que Neville D’Almeida dirigiu 14 filmes, atuou em uma dezena, e ainda está na ativa, criando, produzindo a mercê de sua liberdade. Porque, mais uma vez, “cinema é liberdade”.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A Mata Negra (2018)


Publicado originalmente no site Esquina da Cultura.

A sala estava lotada quando A Mata Negra começou a ser exibido. Com todas as cadeiras ocupadas e algumas pessoas nos corredores. Logo no primeiro momento, uma espécie de introdução do que estava por vir, o filme do diretor capixaba Rodrigo Aragão arranca aplausos dos espectadores.

O longa conta a jornada de Clara (Carol Aragão, filha de Rodrigo), uma jovem que caminha da inocência para a violência por meio da magia negra. Quando criança, ela fora encontrada na floresta por Pai Pedro (Markus Konká), que acabou criando a menina. Em determinado dia, quando Pai Pedro sente-se fraco para ir à feira, ela vai em seu lugar. A partir disso, ela começa um romance com um dos feirantes. Esse romance interrompido por um suposto roubo, que motiva Clara a apelar para a magia negra presente no livro, mudando a vida dela, de seu amado e de todos os outros que estão ao redor.

A Mata Negra é o quinto longa de Rodrigo Aragão. É possível encontrar relações entre seus filmes. Suas inspirações vêm de obras como Senhor dos Anéis, assim podemos montar um mapa da região onde suas produções se passam e fazer algumas interações entre eles. Em um debate com a produtora Mayra Alarcón – esposa de Rodrigo e que também atuou no longa – ela revelou que “esse filme estava na cabeça há muito tempo e ele foi se surgindo a partir das outras produções”. Outra relação entre os filmes é o Livro Perdido de Cipriano, que aparece nos dois longas anteriores, Mar Negro e As Fábulas Negras.

A qualidade de A Mata Negra é inegável. Algumas vezes buscando referências em filmes mais trashes do gênero, deixando de lado os clichês criados pela indústria e trazendo algo novo e diferente para o cinema nacional. Os efeitos especiais também chamam a atenção do espectador. Segundo Alarcón, “o terror surge como uma forma de viajar para um universo fora da nossa realidade”, mas como fazer isso no Brasil, onde o gênero não é bem explorado? “O Rodrigo sempre gostou de efeitos especiais e para fazer o que gostava ele precisou começar a fazer os próprios filmes”, conclui Mayra Alarcón.

A Mata Negra se desenvolve através desse folclore criado por Rodrigo Aragão e, embora o caminho leve a protagonista aos horrores da magia negra, podemos ver um certo otimismo em seu papel. O objetivo que muda de tempos em tempos, quando tenta salvar a vida de algum personagem que aparece em seu caminho, ou reviver seu amado. Mas o desfecho mostra que as coisas no universo Negro criado pelo diretor pode ser mais complexo do que imaginamos e essa ideia já está em fase de criação, como afirmou Mayra Alarcón, e se chamará Terra Negra, dando fim a saga do Livro Perdido de Cipriano.