quinta-feira, 22 de novembro de 2018

O Nó do Diabo (2018)


Estou vendo duas coisas no horizonte cinematográfico. Uma delas é o terror ganhando cada vez mais espaço no cinema nacional, outra, é o cinema nordestino ganhando novo fôlego com suas novas produções. Uma delas é O  Nó do Diabo, filme que reúne cinco contos, tendo como tema a escravidão, dirigidos por Ramon Porto Mota, Jhésus Tribuzi, Ian Abé e Gabriel Martins. O filme é forte e crítica, mesmo através do terror, as raízes escravagistas que persistem no Brasil.

O primeiro conto se passa em 2018, uma fazenda vigiada por um policial frustrado, mandado por um velho escravocrata (interpretado por Fernando Teixeira). O tempo vai regredindo e novos contos ganham a tela, sempre com a escravidão como foco, sempre com o personagem de Fernando Teixeira como o famigerado "sinhozinho".

Esse retrocesso que acontece de conto em conto mostra como o Brasil mudou, se mudou, bem pouco. Hoje a maior parte do que denominamos "elite" descendem desses senhores de engenho, que empregaram seu falso poder naqueles que não podiam questionar. Para mostrar isso, as cenas de O Nó do Diabo são fortes, embora acredite que não chega tão perto do que acontecia na época, acho que isso não seria possível.

Mas voltando ao filme, a união desses quatro diretores resultou em uma excelente obra, um filme muito bem produzido. A história chama atenção para um tema que ainda hoje recorre aos meios para se tornar visível. E esse é o papel do bom cinema: entreter, mas também criticar e provocar mudanças.

O Grande Circo Místico (2018)


Gosto do Cacá Diegues, muito disso devido ao Cinema Novo. Mas fora do movimento, sempre me chamou a atenção a forma como ele trabalhava o lúdico em seus filmes. Agora voltando a direção, ele utiliza esse artifício como nunca havia feito. O Grande Circo Místico é provocador, mas possui uma beleza, que mesmo estranha, agrada.

Um circo centenário. O Grande Circo Místico surge a partir de uma história de amor e vai sendo passado de geração em geração. Toda a história é acompanhada pelo apresentador Celavie (Jesuíta Barbosa), que sonha em ser ator. Enquanto a vida de cada herdeiro vai se desenrolando, o circo resiste a passagem do tempo, sempre apresentando características de cada época.

Em O Grande Circo Místico, Cacá Diegues usa de todos seus artifícios para montar uma boa trama, o filme possui uma estética bonita e montagem característica do diretor. Mas peca no rodízio de personagens, que entram e saem muito rápido de cena, seria o caso de diminuir uma geração e dar mais tempo para as outras? Isso nunca vamos saber. Mas quem está sempre presente é Jesuíta Barbosa, em grande atuação. Um personagem realmente místico, com seus mais de 100 anos e nenhuma marca do tempo.

O filme está representando o Brasil na seleção para o Oscar de Filme Estrangeiro. Essa é a sétima vez que Cacá passa pela seleção, a primeira foi em 1977, com Xica da Silva (o prêmio acabou ficando com Jean-Jacques Annaud com 'Preto e Branco em Cores). Embora a concorrência seja pesada, as chances são boas, já que agora Cacá aposta em um tema que pode não ser novo no meio, mas é uma das melhores produções de ficção sobre a arte circense.