quarta-feira, 23 de outubro de 2019

La Vida en Común (2019)


43° Mostra SP - descendentes de uma tribo indígena expulsa de seu território na década de 1980 são convidados pelo governo argentino a reocuparem suas terras. A história se desenvolve através dos olhos dos mais jovens, que são intermediários da cultura indígena arcaica e das novas tecnologias, que caminham juntas durante toda a produção. Existe também a presença de um puma, que embora raramente visto por alguém, tanto espectador quando personagem, está sem presente no dia a dia dos jovens. La Vida en Común é um documentário escrito e dirigido por Ezequiel Yanco, com uma excelente fotografia a cargo de Joaquin Neira.

Falar sobre a produção, é falar sobre a história de tribos ancestrais da Argentina. Já em 2015, Yanco partiu atrás dessa história, em um lugar onde os destroços causados pela invasão dos militares ainda podiam ser vistos. O extermínio dos indígenas na década de 1970 teve como desculpa o progresso do país, e fora ainda mais incentivado após o assassinato de colonos que buscavam ocupar as terras. Hoje eles vivem no que parecem casas futuristas desenhadas para que a nova cidade possa acompanhar o desenvolvimento urbano. Mas o puma, como um ancestral que sempre lembra da cultura e tradições ancestrais, está sempre presente, como caça, ou como caçador.

Mas depois da vida em centros urbanos, retornam às origens com a tecnologia que se tornou indispensável. Um smartphone que usam para ouvir música, ou reproduzir cantos de pássaros, atraindo outro e facilitando a caça. Daí vem a importância da visão juvenil sobre a situação daquele povoado. O novo e o velho encontram-se a partir deles com suas tecnologias herdadas de suas vidas na cidade e a recuperação da cultura indígena, que é feita por meio dos dialetos, danças e costumes aprendidos na escola da região.

É preciso atenção para captar a ideia que Yanco procura transmitir com La Vida en Común. Porém, o que mais agrada e se torna fácil de enxergar, é a fotografia de Joaquin Neira. O planos abertos que exploram cada relevo daquele deserto são belos, do anoitecer ao nascer do sol, existe sempre uma estética que surpreende. Como na cena em que um dos garotos dançam no entardecer, começando com o sol ofuscando os olhos de quem vê, para num segundo momento o garoto tomar o foco, como se através da dança estivesse renascendo, sendo quem ele realmente gostaria de ser.

La Vida en Común pode ser um documentário um pouco lento, cansativo, mas vale a experiência para aprender um pouco mais sobre as origens indígenas argentinas, que pouco chega ao cinema, e também receber uma excelente fotografia, que é de encher os olhos. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Labirinto (Labirent, 2019)


43° MOSTRA SP - Ele corre e grita por seu filho. Em desespero, decide chamar a polícia e iniciar uma busca, é preciso uma fotografia do garoto. Amirali (shahab Hosseini) parece um tanto displicente em ajudar, algo está errado. O desaparecimento revela uma série de fatos ocultos em torno da família. Traições, mortes e desprezo vêm à tona em Labirinto, filme escrito por Tala Motazedi e dirigido por Amir Hossein Torabi.

Desde A Palestina Brasileira tenho me interessado pelo cinema do oriente médio. Em sua maioria, são documentários que tratam da situação política, social e cultural dos países, talvez por isso Labirinto me surpreendeu tanto. Uma obra de ficção com um roteiro muito bem amarrado, atores incríveis e uma história nada intuitiva. Fica claro que Amirali está escondendo algo em torno do desaparecimento de seu filho (que na verdade não é seu filho), e durante todo o tempo as cartas são postas à mesa, dando sugestões do que poderia ter causado o incidente. Mas é sempre um jogo falso, um beco sem saída. Amirali enfrenta seu esposa, Nadir (Sareh Bayat), e sua família, sem saber ao certo o que fazer.

Uma amiga da família está sempre por perto, ajudando, dando suporte para aqueles mais exaltados. Seu papel é importante na trama, mas não como um pilar, é mais profundo que isso. Pois ela é amante de Amirali, e já perto do fim descobrimos que ele estava com ela na hora do desaparecimento, e não em um supermercado como foi dito. Mas ainda a muita coisa para desvendar nessa história, surpreende como acontece tantas coisas em pouco mais de uma hora, e nenhuma delas está largada em algum canto, tudo faz sentido e surpreende.

Dificilmente se vê uma produção tão curta com tudo o que Labirinto apresenta. O drama familiar que não ocorre por acaso, tudo é explicado. Muitas vezes nos fazem questionar os motivos, nos dão sugestões, mas no fim é sempre um equívoco. Gostei do trabalho de Amir Hossein Torabi, além da história bem aproveitada, a fotografia é excelente, sempre focando na expressão dos atores, que atuam muito bem. Labirinto é um ótimo filme de ficção, que abre um leque ainda maior do cinema iraniano, mostrando que além de chamar a atenção para a situação do país através de documentários, também pode entreter.